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A mostrar mensagens de fevereiro, 2026

Da festa dos Óscares - previsões e preferências

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  2025 foi uma grande colheita cinematográfica, como se pode atestar na qualidade dos filmes nomeados aos óscares, fora os muitos outros que também poderiam ter sido nomeados e ficaram de fora ( Manas , House of Dynamite , After the Hunt , Black Bag , On Falling ou Pillion são só alguns exemplos de que me recordo). Entre as principais categorias, só ainda não vi a Amy Madigan (atriz secundária) e A Voz de Hind Rajab (Tunísia), e começo pelos candidatos a melhor filme falado em língua não inglesa, amei incondicionalmente os outros quatro nomeados: Sirât (Espanha), Foi Só Um Acidente (mais ou menos Irão), Valor Sentimental (Noruega) e O Agente Secreto (Brasil), os últimos dois também na corrida para o prémio principal, melhor filme. Para atriz secundária, sendo muito remota a hipótese de Inga Ibsdotter Lilleaas ganhar, e acreditando no desempenho de Amy Madigan, que ganhe qualquer uma que estará muito bem. Os nomeados para atores secundários são todos brilhantes, se bem que t...

Dos filmes que adoramos - Blue Moon, de Richard Linklater

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  Blue Moon , realizado por alguém que muito admiro, Richard Linklater, é um daqueles filmes que parece uma peça de teatro, um único cenário, atores a entrar e sair, e um texto, no seu minimalismo é um filme intimista, espirituoso e comovente. Uma dupla de compositores famosos da Broadway, autores de êxitos como My Funny Valentine e a Blue Moon que dá título ao filme, desfaz-se, não por falta de cumplicidade artística ou empatia pessoal, mas porque um dos elementos, Lorenz Hart, enfrenta sérios problemas de alcoolismo e de saúde mental, é tramado quando um génio não se torna confiável. Ethan Hawke interpreta esta personagem que se destrói, que se humilha, que seduz e que não perde alguma perfídia durante a sua derrocada, que se enamora de forma meio naif meio voyeurística por uma cintilante Margaret Qualley, amparado pelo barman bom ouvinte Bobby Cannavale que o sabe escutar, ao som de um piano jazzístico com canções dos anos 40, tudo isto com o amor paternalista e fraterno da ...

Dos filmes de que gostamos - O Monte dos Vendavais, de Emerald Fennel

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  Consigo compreender porque é que os admiradores da obra de Emily Brontë, O Monte dos Vendavais , escrita há quase 200 anos, gritam, quase em uníssono, que este filme de Emerald Fennel é grotesco, um ultraje, um horror, mas eu nunca li o livro, e talvez por isso, gostei muito deste O Monte dos Vendavais . Fennel (de quem já tinha gostado muito do seu último filme, Saltburn ) não quer ser fiel à obra nem à metafísica das paixões impossíveis, ela prefere recriar tudo com excesso, mais do que a palavra é a imagem, a cor, a carnalidade dos corpos, a fatalidade do destino. Percebo quem entenda que o filme é pretensioso, desequilibrado, exagerado, para mim foi um filme com ritmo, vibração e fisicalidade, e isso é bom. Até aqui Jacob Elordi, já uma estrela mediática de Hollywood, tinha-me passado despercebido (mesmo no oscarizável Frankenstein), mas gostei muito do seu Heathcliff, a roçar entre o tóxico e intimidante com a fragilidade do amante incorrespondido, fazendo uma dupla muito ...

Das séries que eu vejo - Pluribus

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  Heresia das heresias, eu, amante confesso de séries, nunca tive curiosidade em ver Breaking Bad, mas redimo-me ao me afirmar grande fã de Better Call Saul, com a fantástica Rhea Seehorn. Do mesmo criador de ambas, Vince Gilligan, Pluribus é uma parábola prodigiosa sobre algumas questões metafísicas, e se de repente para haver paz no mundo todos temos de pensar igual, e se o meu direito a me irritar colide com os direitos fundamentais de outras pessoas, e se, e se, o argumento é muito engenhoso, rico, tudo é muito bem feito, mas para mim, tirando o efeito de surpresa inicial, foi tudo um bocejo, lamento, e não foi por existirem muitas cenas demasiado lentas, o meu problema não foi esse, foi mesmo falta de emoção.  

Dos filmes mediocres - Primeira Pessoa Do Plural, de Sandro Aguilar

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  Será possível devolverem-me pf o preço do bilhete? Um cartaz bonito e uma dupla de protagonistas que admiro profundamente (Albano Jerónimo e Isabel Abreu), não hesitei, mas senti este filme como um ultraje. Gostasse mais ou menos, nunca antes tinha saído da sala de cinema a meio de um filme, pois bem, aconteceu, o sofrimento estava-me a ser insuportável. Éramos poucos, 15 pessoas, quando o filme terminou, creio que não deveria estar ninguém, foi a debandada geral. Mau demais.    

Dos filmes de que gostamos - Se Eu Tivesse Pernas Dava-te Um Pontapé, de Mary Bronstein

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  Se Eu Tivesse Pernas Dava-te Um Pontapé, de Mary Bronstein, fala-nos de uma maternidade algo envergonhada, aquela que aguenta um marido ausente e conflituoso, um trabalho exigente, uma casa com um buraco no teto, e ainda tem de ser amorosa e cuidadora de uma filha doente e embirrenta, por vezes uma mãe só quer desaparecer e beber uns copos e fumar umas coisas, o filme respira saúde mental, tensão, ansiedade e risco por todos os poros. Desconhecia Rose Byrne, mas que atriz fenomenal, estamos siderados a olhar para ela em todas as cenas do filme, um papelão inesquecível, que contracena com Conan O’Brien, seu colega e terapeuta, sendo que Conan O’Brien vai ser o apresentador da próxima cerimónia dos Óscares, seria engraçado vê-lo a entregar-lhe a estatueta, não fosse existir Jessie Buckley e o prémio era seu.  

Dos filmes que vejo - Marty Supreme, de Josh Safdie

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  Marty Supreme não é um mau filme, tem coisas muito boas, é bom entretenimento, com uma fortíssima direção de atores, a fotografia, não deixando de ser irritante alguma glorificação de uma masculinidade tóxica muito acentuada neste jovem americano dos 50, mas ok, o cinema não é só sobre personagens recomendáveis. Sendo um bom filme, não é, contudo, um grande filme, está vários furos abaixo de outros que estão na corrida para os óscares deste ano, fiquei com a sensação que foi sobretudo uma maneira de Josh Safdie mostrar mais uma vez que domina a arte de realizar filmes, ele faz coisas muito fixes, mas cinema frenético de alta voltagem sem aquela chispa ou centelha, é só mais cinema frenético de alta voltagem, eu cá saí da sala de cinema como tinha entrado, está visto. O grande favorito para a estatueta dourada de melhor ator é Timothée Chalamet, não sendo o meu favorito, tenho de reconhecer que também será um justo vencedor, brilhante.  

Dos filmes que vemos - F1, de John Kosinski

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  F1 é um filme competente que se vê com agrado, tem os clichés todos, o regresso do herói, o rookie insolente, a adrenalina da velocidade e a dupla amorosa Brad Pitt-Kerry Condon com a chispa necessária, é bom cinema de entretenimento do realizador Joseph Kosinski, que já tinha realizado o também muito competente Top Gun: Maverick, mas daí até ser nomeado para melhor filme, os votantes da Academia de Hollywood estavam distraídos.  

Dos filmes que adoramos - Hamnet, de Chloé Zhao

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  O argumento de Hamnet sugere que Shakespeare escreveu uma das suas principais tragédias, Hamlet, para superar o luto da morte do seu filho varão, não se sabe se esta história é verídica, é indiferente se sim ou não, digo eu. Muitos espetadores irão às lágrimas (ouvi muitas fungadelas numa sala cheia absolutamente silenciosa), outros acharão uma lamechice pegada, não verti uma lágrima, não achei nada piegas, pelo contrário, em Hamnet há muita contenção apesar de não haver medo de nos enfiar a pior tragédia de todas por nós adentro. Depois da agonia de perder um filho, a futilidade de continuar, a incapacidade de tomar decisões, to be or not to be , vale a pena viver ou simplesmente desistir, alguém que viva por nós porque já não se consegue, dois pais destruídos a afastarem-se no seu luto insuportável, mas se o pai William não pode devolver a vida ao seu filho, o dramaturgo Shakespeare reduz a sua personagem a um fantasma e dá vida eterna a quem partiu, trazendo o perdão e a paz a que...

Do Teatro que vejo - A Gaivota, de Anton Tchéckov, por Diogo Infante

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  Há algum problema com teatro mainstream ? Absolutamente nenhum. A Gaivota é um dos clássicos maiores de Tchéckov, escrito em 1885, sobre a natureza da arte e a essência dos artistas, numa altura pré-revolucionária em que as novas gerações aspiravam a ares de mudança. Diogo Infante apropriou-se do texto e transportou-o para a atualidade, procurando manter a estrutura e o espírito do texto original, a vaidade e o glamour dos artistas, o sentimento de impostor, o conflito de gerações, a frustração, os amores e, sobretudo, os terríveis desamores, quer em cima de um palco, quer na vida real, tudo matéria muito interessante, convenhamos. O texto foi encurtado para prender a atenção do espetador, e conseguiu, as duas horas da peça passam rápido, Alexandra Lencastre é uma excelente atriz, Ivo Canelas, sendo um dos nossos maiores, andou algo sonolento, o resto do elenco competente, ou honesto, este adjetivo tão ingrato, mas tenho de destacar a interpretação do André Leitão, conquistou-me em a...