Dos filmes que adoramos - Hamnet, de Chloé Zhao

O argumento de Hamnet sugere que Shakespeare escreveu uma das suas principais tragédias, Hamlet, para superar o luto da morte do seu filho varão, não se sabe se esta história é verídica, é indiferente se sim ou não, digo eu.
Muitos espetadores irão às lágrimas (ouvi muitas fungadelas numa sala cheia absolutamente silenciosa), outros acharão uma lamechice pegada, não verti uma lágrima, não achei nada piegas, pelo contrário, em Hamnet há muita contenção apesar de não haver medo de nos enfiar a pior tragédia de todas por nós adentro.
Depois da agonia de perder um filho, a futilidade de continuar, a incapacidade de tomar decisões, to be or not to be, vale a pena viver ou simplesmente desistir, alguém que viva por nós porque já não se consegue, dois pais destruídos a afastarem-se no seu luto insuportável, mas se o pai William não pode devolver a vida ao seu filho, o dramaturgo Shakespeare reduz a sua personagem a um fantasma e dá vida eterna a quem partiu, trazendo o perdão e a paz a quem sofre, a arte que por vezes pode salvar.
Sou grande fã de Paul Mescal, seguramente um dos meus atores favoritos da atualidade, e parece-me um ultraje não ter recebido a nomeação para o óscar de melhor ator secundário (e já vi todas as interpretações nomeadas), mas a irlandesa Jessie Buckley tem um dos melhores trabalhos de que me recordo nos últimos anos, da leveza, da intuição, do instinto protetor, da destruição, da redenção, das pazes consigo e com o seu marido, tudo cabe no seu olhar, é visceral, o óscar só pode ser seu (e Byrne e Reisnve estão também fenomenais).
Temos ainda os jovens atores que fazem de gémeos, o pequeno Hamnet Jacobi Jupe, a avó Emily Watson, a música de Max Richter, a fotografia, para mim tudo funcionou, há filmes perfeitos, Hamnet, mesmo sendo agreste para quem tem problemas com a perda e com o luto, é um deles.
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