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A mostrar mensagens de abril, 2024

Dos filmes que vejo - O Rapto, de Marco Bellocchio

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  Em O Rapto, do italiano Marco Bellocchio, vemos uma igreja católica no século XIX obscura, fanática, grotesca, que impunha aos crentes as suas verdades dogmáticas (espetacular a cena em que o menino Edgardo explica a Pio IX o que é uma dogma, uma verdade da fé em que se acredita sem se fazer perguntas, sem se discutir, porque vem diretamente de Deus) como forma para estes aceitarem as maiores atrocidades dos eclesiásticos, mesmo quando sob as suas vestes de cordeiro cortavam cerce nos laços familiares de uma criança com a sua família, nomeadamente neste célebre caso em que um bebé judeu foi batizado à revelia de seus pais e como tal foi-lhes raptado para ser educado à luz da fé católica, educado para ser obediente e subserviente, educado para servir a Igreja de forma acéfala e deixar morrer o homem que há dentro de cada um de nós. O filme é de um classicismo puro, austero, imponente, por alturas de 1850 vemos uma Bolonha, e uma Santa Sé, opulenta, rica, próspera, virtuosa nos seus ri...

Das nossas músicas - Diga 33 com A garota não

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  Não foi há muito que o Burro Velho partilhou aqui o seu encantamento pel’A garota não, mas ainda e sempre por Abril e pela Liberdade, e se a liberdade é a chamada nunca mudemos de assunto !   A Garota, sempre prenhe de música, poesia e intervenção, pediu emprestado 33 títulos de canções a Sérgio Godinho e compôs este hino à nossa Liberdade:   Espalhem a notícia Na Lisboa que amanhece Se o galo é o dono dos ovos À mulher, o que acontece? Cão raivoso, Aguenta aí A tua fala é uma emboscada Tem Embalo e matraquilhos E sabe A Noite Passada Liberdade, dias úteis Horas extraordinárias Etelvina, Rita, Alice Tantas lutas necessárias Cuidado com as imitações E as bíblias desse deus ateu Há bilhetes de ida e volta Salazar nunca morreu Toca e foge, não respire Mais uma canção de medo Antes o poço da morte Do que cantar em segredo Liberdade, dias úteis Horas extraordinárias Homens de sete instrumentos Tantas lutas necessárias Pode alguém ser quem não é? Se for só contrafação? Quando o lobo vai à ...

Pela Liberdade!

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50 anos de vida, 50 anos de liberdade, 50 marmanjos na Assembleia da República que a querem destruir, o mar de gente que desceu a avenida da Liberdade foi uma festa comovente, um bálsamo de esperança pelos valores de Abril, liberdade sempre!  

Da atualidade política - as boutades e a persona de Marcelo

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  Os portugueses há muito que se habituaram às insanidades de Marcelo, mas ontem foi um dia especialmente prolífero em boutades marcelísticas, ficámos a saber que aos seus olhos António Costa é lento devido à sua ancestralidade oriental, Montenegro tem comportamentos rurais porque vem lá da terrinha saloia, e que tem um neto preferido, o resto da sua prole que lhe saia da sua vista, a sério, não haverá ninguém que lhe diga que não tem condições para ocupar o cargo? Será que os processos de impeachment (ou destituição) só acontecem no Brasil e nos Estados Unidos? Também soubemos hoje que cortou relações com o " Dr. Nuno ", seu filho, a propósito do caso das gémeas brasileiras. Quem não é bom filho, não é boa pessoa , há muito que adotei esta velha máxima cá com os meus botões, que é mais ou menos o mesmo que dizer que quem não é bom pai, não é bom presidente, e sobre isto apetece-me dizer que um pai não deve cortar relações com um filho, mas um presidente pode (e deve) renunc...

Dos filmes de que eu gosto - Retrato de Família com Teatro de Marionetas, de Philippe Garrel

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  Seja por crescimento, doença ou morte, as famílias transformam-se, desagregam-se, multiplicam-se, a nossa célula familiar tal como a conhecemos desde a infância vai invariavelmente tornar-se noutra coisa qualquer, sendo esse processo por vezes gradual e feliz, noutras súbito e doloroso, convocando-nos para uma aceitação e para um luto que nem sempre o sabemos viver da melhor forma. RETRATO de FAMÍLIA com TEATRO de MARIONETAS ( Le Grand Chariot , no original), do realizador francês Philippe Garrel e com os seus 3 filhos como protagonistas (Louis, Esther e Léna), é um filme normal que fala duma família normal, unida pelo amor em vida e pelo amor na perda, no luto e no conflito entre largar o ninho ou preservar até ao último tostão todas as memórias do passado, um belíssimo filme por sinal.  

Das séries que eu adoro - Ripley

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Ripley pode muito bem vir a ser a melhor série de 2024, que portentosa obra-prima. A partir do muito aclamado policial de Patricia Highsmith - ‘ O talentoso Mr. Ripley’ -, tão bem e tantas vezes já adaptado ao cinema, a última das quais (que eu saiba) em 1999 pelo falecido Anthony Minghella, com Matt Damon, Jude Law, Gwyneth Paltrow, Cate Blanchett e Philip Seymour Hoffman (!!!), nesta série de 8 episódios de Steven Zaillian temos todo o tempo do mundo para testemunharmos as profundezas mais negras do ser humano, a ambiguidade de quem num momento suscita empatia e logo a seguir solta a besta inominável dentro de si, oito episódios em que estamos sempre expectantes no que pode acontecer a seguir, em que um simples ascensor dos anos 60 pode não ser só um simples ascensor, em que um gato majestoso que nos convoca com a força do seu olhar pode não ser simplesmente só um gato, onde tudo pode ser aquilo que aparenta ser ou não, onde o belo coabita sempre com o negro, são oito demorados e de...

Da atualidade política - o embusteiro

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  Claro que Montenegro e o PSD mentiram à fartazana com o tão prometido choque fiscal, simplesmente a principal promessa eleitoral e a primeira medida a ser anunciada no programa do Governo, coisa pouca - podem dizer à vontade que os jornalistas e a oposição se não perguntaram foi porque não quiseram, trabalhassem - por acaso a IL até perguntou de forma insistente e bem explícita -, podem até dizer que o que sempre prometeram foi uma redução de 1.500 milhões de euros em 2024 face a 2023, ou seja, nunca afirmaram preto no branco de quem era a paternidade da dita redução nunca antes vista pelos portugueses , podem dizer tudo e mais alguma coisa com aquele sorriso seráfico tão próprio de quem nada tem para dizer, ou melhor, de quem sempre espera para ver donde sopram ventos de feição antes de nos comprometermos seja com o que for, o verdadeiro catavento, podem até mandar o Ministro dos Assuntos Parlamentares aguentar-se à bronca no Parlamento e esconderem o Ministro das Finanças em Nova I...

Da TV de que eu gosto - Vinhos com História

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  Belíssima série documental de cinco episódios sobre alguns vinhos portugueses e o que os torna tão únicos, mostrando-nos ao longo das 4 estações do ano como são feitos, entre a vinha e a adega, dando-nos saborosas lições de história, de geologia, das castas tradicionais portuguesas, ao mesmo tempo que nos dá a conhecer as pessoas que souberam trazer a tradição destes vinhos até aos dias de hoje. No fim ficamos seguramente com vontade de ir visitar estes locais e provar estes néctares, depois dos vinhos da talha da Vidigueira, de Colares ou do Pico, aonde é que iremos a seguir? Na RTP1.  

Das lições de história - o sono comunitário

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  A BBC, com uma longa reportagem chamada ‘ The lost ancient practice of communal sleep ’, dá-nos uma lição de história sobre hábitos desde tempos muito idos em que as pessoas dormiam de forma comunitária, ou seja, juntas, mesmo quando eram estranhas entre si. Os historiadores conseguem recuar 77.000 anos, com provas recolhidas em grutas na África do Sul, e relatam múltiplas evidências até ao século XIX, com alguns leitos de famosos partilhados e as virtudes de se partilharem lençóis e cobertores, como a aliança que durou algum tempo entre Inglaterra e França pela amizade estabelecida, em 1187, entre Ricardo Coração de Leão e Filipe II, camas essas que começaram a ser partilhadas enquanto ambos os países estavam em guerra, basicamente durante o dia davam ordem aos seus generais para matarem em barda, e à noite recolhiam à mesma tenda. Vários historiadores, que leram manuscritos, diários, de gente famosa e desconhecida, viram pinturas, esculturas, fósseis, estão certos que durante milha...

Diz-me com quem andas ... - o PSD e Pedro Passos Coelho

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    ... e dir-te-ei quem és! Há algum tempo que o Burro Velho não vem aqui perorar sobre política nacional por este ser um tempo de forte descrença do atual panorama e por querer dar o benefício da dúvida a quem ainda não me convenceu merecer esse benefício, mas o seu a seu tempo e que nos convençam do contrário. Esta auto-imposta, e bem-comportada, contenção cai por terra ao ver o apadrinhamento de Pedro Passos Coelho ao novo manifesto, anti-progressista, em defesa dos valores da família, o livro ' Identidade e Família ´, de um nobel conjunto de pensadores da direita tradicionalista (permitam-me o eufemismo), apelando à contenção possível que ainda me resta para não adjetivar o dito livro, até porque não o li, e certamente não o lerei, pelo que gostaria de não o classificar com termos como bacoco, reacionário, perigoso e abstruso. Será só minha esta inquietação a propósito desta nuvem escura que paira no PSD: a malta social democrata, ou seja que não é socialista, a malta que acr...

Das séries de que gosto - Love & Death

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  Love & Death , série da HBO, começa logo com um crime de machado e alguidar, um crime bastante conhecido que abalou a América em 1980, mas se o final da história é sobejamente conhecido para os americanos, para nós que não fazemos a mais pequena ideia do que se passou (a não ser os que viram recentemente uma série na Disney+ baseada nos mesmos acontecimentos – Candy – com Jessica Biel) é antes de tudo o mais uma série de suspense, um policial. A trama passa-se num subúrbio privilegiado do Texas profundo, Wylie, um verdadeiro ideal american dream , onde dois jovens casais, bonitos, promissores e empenhados na sua comunidade, que militam numa igreja conservadora meio castradora meio desempoeirada, experimentam algum atrevimento da libertação sexual tão própria dos anos 70 nas grandes cidades, onde as donas de casa desesperam com os seus maridos que têm empregos de sonho e que lhes permitem ter os cortinados cheios de folhos a fazerem pandã com o papel das paredes. Série produzida p...

Das coisas bonitas - Conversas no Foyer, no Teatro Nacional São Carlos

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  O Teatro Nacional São Carlos (TNSC) vai encerrar em breve para obras profundas de reabilitação, com o apoio dos fundos do PPR, prevendo-se a sua reabertura apenas para Outubro de 2026. Ir ao TNSC é sempre uma experiência memorável, seja para assistir a uma récita, ver um bailado ou ouvir o coro a acompanhar uma orquestra, tão só um pequeno concerto de natal no Foyer ou simplesmente visitar o edifício, ir ao São Carlos é ir ao São Carlos, ir ao São Carlos é estarmos em Lisboa e pedirmos meças a Milão, Viena ou Nova Iorque. É inegável que até ao 25 de Abril só a grande elite frequentava o São Carlos, mas passados 50 anos ainda é uma casa muito virada para as elites, não somente as abastadas mas sobretudo as da alta cultura, não só por uma programação que faz poucas cedências a um gosto sofisticado dos melómanos e por os preços não serem propriamente baratos, mas sobretudo pela falta de hábito dos lisboetas, e portugueses em geral, de frequentarem esta que é uma das salas de espetáculo...

Das minhas músicas - O que fomos e o que somos, Lena d'Água

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  Desfrutem esta lindeza que é a nova canção da Lena d'Água, e ouçam as palavras que a sua voz doce nos canta, que poema este tão bonito de Pedro da Silva Martins sobre um amor amadurecido:   O que fomos e o que somos Já pouco reconhecemos A correr atrás de sonhos Tantos erros cometemos É algo que não se explica O amor que ainda temos No azar que lamentamos No tempo que nós perdemos No escuro em que mergulhamos Há sempre uma luz que vemos E é nessa maravilha Que nós dois ainda cremos E queremos lá saber Qual a sorte que nos espera Dia a dia na rotina Vir à tona e respirar Há sempre uma primavera Quando o inverno passar E ainda nos perguntamos Como é que isto aconteceu Dias, meses, foram anos E ninguém se apercebeu Que por nós passou a vida E o nós permaneceu Sinto ainda no meu peito Quando olhas para mim Se há um caminho perfeito Só pode ser feito assim Com a tua companhia Isto nunca vai ter fim          

Das séries que eu vejo - True Detective: Night Country

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  A quarta temporada de TRUE DETECTIVE: NIGHT COUNTRY (não vi as anteriores), liderada por Jodie Foster, agarrou-me no início, com a atmosfera pesada dos dias que são sempre noite algures num lugar esquecido do Alaska, o frio glaciar do Ártico, as tempestades inclementes, a vida sem horizonte das pessoas que à primeira vista parecem todas infelizes ou antipáticas, mas que vão tentando sobreviver aos seus dramas, o crime ecológico, tudo isto apimentou ainda mais uma trama policial com ares de filme de terror, onde o suspense e o mistério se cruzam com o surreal, mas no fim morreu sem chiar, que é como quem diz, o final foi muito preguiçoso e atabalhoado com muitas pontas soltas por resolver, foi mais fácil meter tudo debaixo do chapéu do sobrenatural do que levar a história até ao fim. Não foi mau, mas soube a pouco. Na HBO.