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A mostrar mensagens de março, 2024

Dos projetos bonitos - Fruta Feia

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  De acordo com estudos da FAO, organização da ONU para a agricultura e alimentação, cerca de metade da comida produzida vai para o lixo, sendo uma das principais causas deste desperdício o nosso padrão de consumo que rejeita as frutas e as hortaliças feias, aquelas que não têm a cor, o tamanho ou formato perfeito aos nossos olhos. O projeto FRUTA FEIA, com mais de 10 anos de existência, pretende reduzir o desperdício, promover comportamentos sustentáveis e apoiar os agricultores locais vendendo produtos hortofrutícolas feios mas de qualidade. A rede da FRUTA FEIA ainda se cinge aos concelhos da grande Lisboa e do grande Porto, mas para quem reside próximo de uma das delegações basta inscrever-se e todas as semanas pode levar a sua caixa de frutas e hortaliças frescas para casa, mediante o pagamento de 4€ ou 8€ consoante o tamanho da caixa. Na delegação que fica perto de minha casa a lista de espera ascende a dois ou três anos, mas não tem mal, como há sempre pessoas que não conseguem ...

Dos livros de que eu gosto - A Zona de Interesse, de Martin Amis

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  Quando há algum tempo li que o livro de Martin Amis sobre o holocausto, A Zona de Interesse , estava a ser adaptado ao cinema fiquei logo entusiasmado por ver o filme e ler o livro - não tanto o tema do holocausto em si, mas, sobretudo, a herança que quem o perpetuou teve de carregar nas gerações seguintes, é algo que sempre me despertou muito interesse. Para não correr riscos de defraudar expetativas, resolvi aguardar pelo filme e só depois ler o livro, sendo que o filme - com argumento adaptado pelo próprio Amis – é, de facto, apenas levemente inspirado no livro, são objetos muito distintos, e os dois absolutamente extraordinários, diga-se. O estilo habitual do autor da trilogia de Londres, divertido e contundente sobre os vícios e os podres da sociedade contemporânea, dificilmente é reconhecido neste livro, apesar de ter lido algures que A Zona de Interesse é também uma comédia, afirmação com a qual estou em total desacordo, não consegui nele encontrar quaisquer vestígios de dive...

Da atualidade política - contradições, ou talvez não

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  Ao que parece os emigrantes portugueses que foram à procura de melhores condições para a Europa, e que quiseram votar nas eleições legislativas, deram na maioria o seu voto ao Chega, partido contra a imigração, o que faz sentido, nós podemos ir ganhar a vida para os países ricos mas os outros não podem vir ganhar a vida em Portugal, ora pois claro, quem vai de portas abertas fecha a porta a quem vem.  

Das séries de que gosto - FEUD: Capote vs The Swans

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  Feud: Capote vs The Swans, a nova série de Ryan Murphy ,  é aparentemente só uma história de fofocas e mexericos da alta-roda nova-iorquina dos anos 60 e 70, mas é bem mais do que isso, é a história de Truman Capote, acabadinho de vencer o Nobel da literatura com ‘A Sangue Frio’ e alvo de todas as atenções mediáticas e sociais, o bobo da corte gay, viperino e desbragado, que todas as socialites disputam para o ter ao seu lado, um mundo onde se toma banho com Don Perignon e os lençóis são encomendados em Paris quando se vai aos desfiles da Givenchy ou Chanel, mas quando Capote resolve pôr a nu os podres das suas amigas e inimigas, as Swans, passamos a ter um retrato surpreendentemente sensível da solidão encharcada em cigarros e vinhos caros, um olhar triste de mulheres absolutamente deslumbrantes e intocáveis que são mal tratadas e depois tratam as outras pessoas igualmente mal, personagens carismáticas, atenciosas e capazes de amar quem lhes é próximo, mas que são ao mesmo tempo de...

Ainda da noite dos Óscares

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Há muitos anos a esta parte que ouvimos sempre dizer que a cerimónia dos Óscares já não é o que era, a própria redução drástica das audiências tem vindo a atestar isso, pois bem, a cerimónia deste ano foi, apesar de totalmente previsível, um sucesso. O apresentador, o comediante Jimmy Kimmel, teve uma postura mais institucional mas com um apuradíssimo sentido de humor, algo corrosivo como quando brincou com o passado de drogas de Robert Downey Jr., mas deliciosamente certeiro quando perguntou a Trump, que tinha acabado de tweetar contra Kimmel, se ainda não eram horas de ir para a prisão. Além destas piadas houve mais gargalhadas como quando o wrestler John Cena entrou em palco (quase) nu para apresentar o óscar para o melhor guarda-roupa, foi divertido. Não faltou o discurso emotivo e galvanizador de Da’Vine Joy Randolph e tivemos atores laureados no passado a homenagearem os atores nomeados, foi um momento inovador e muito sentido. O In Memoriam , com o Andrea Bocelli e filho a can...

Dos espetáculos de que gosto - A Rainha da Beleza de Leenane

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  A Rainha da Beleza de Leenane , encenação de Sandra Faleiro a partir de um texto do irlandês Martin McDonagh (conhecido por ser o argumentista e realizador de filmes como Os Espíritos de Inisherin ou Três Cartazes à Beira da Estrada ), fala-nos do envelhecimento, da saúde mental, do isolamento, da necessidade de se ir ganhar o pão para terras estrangeiras, mostra-nos um caminho sem empatia que pode ser o de todos nós, mas recorda-nos que podemos sempre fazer um caminho melhor, que podemos sempre sentir que fomos empáticos e ter a consciência de que fizemos o melhor que nos era possível, ou seja, o contrário de tudo o que vemos em cena. Devido à exiguidade da sala estúdio do Teatro da Trindade, nós espetadores quase que entrámos pelo cenário dentro e respirámos aquela intimidade das personagens numa experiência muito física, quase que integrámos aquele cenário, quase que fomos iluminados por um jogo de luzes que nos fez gravar na memória várias imagens do que as nossas vidas são, ou ...

Da festa de Hollywood - a noite dos Óscares

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  Numa noite que promete ser longa e de emoções fortes, nada melhor do que a festa do cinema para esquecer possíveis amargos de boca que a noite eleitoral nos possa trazer, e sim, a cerimónia de entrega dos Óscares é só isso, uma festa, nada mais do que isso, uma noite que não vai fazer com que as pessoas de Gaza ou da Ucrânia respirem melhor e que tão pouco vai consagrar todos os bons filmes, nem pouco mais ou menos, é apenas uma festa em que Hollywood celebra o cinema e graças aos ares de mudança que por lá se tem sentido - às vezes com uma tónica demasiado excessiva na preocupação em ser politicamente correto e não deixar nenhuma minoria de fora - uma celebração que cada vez mais abraça cinematografias de países onde a lingua inglesa não impera. A colheita de 2023 foi memorável no que a filmes diz respeito, por isso não teremos maus filmes entre os vencedores, mas ainda não vai ser este ano que os meus favoritos vão sair vitoriosos, já nem me recordo de quando foi a última vez que s...

Dos filmes de que gosto - As Bestas, de Rodrigo Sorogoyen

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  AS BESTAS, do espanhol Rodrigo Sorogoyen, arrecadou Goyas e Césares em barda e é um belíssimo e perturbante filme, com toques de thriller , sobre a brutalidade do mundo rural, um mundo que não entende o da cidade que vem falar em ecologia e paz de espírito, e o da cidade que não assimila a rudeza e as desavenças entre vizinhos por coisas aparentemente pueris, como a disputa de servidões de passagem, que à cidade pode parecer estranha mas que podem ser de toda a importância para quem vive fechado numa vida sem horizontes e que sobrevive a contar tostões e a chafurdar na lama. Enquanto a primeira parte foca-se numa violência masculina muito primitiva e xenófoba - vêm agora estes estrangeiros aperaltados mandar nos que aqui já nasceram -, na segunda ganha fôlego a perseverança e a história de amor graças à conciliação feminina, correndo o risco, parece-me, deste filme aumentar o fosso entre a cidade e ruralidade, corre o risco destas gentes se sentirem ofendidas - nós não somos assim, ...

Dos espetáculos de que gosto - Fuck Me, de Marina Otero

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  Desperdicei algum tempo no início de FUCK ME, espetáculo de dança autoficcional da coreógrafa argentina Marina Otero, a tentar perceber qual era a fronteira daquela lesão na coluna com a realidade (está mesmo entravada como diz estar?) e a questionar-me se a nudez em palco acrescentava alguma coisa ou se seria apenas gratuita ou para chocar, distraí-me alguns minutos com estes pensamentos e não entrei logo na peça, tão pouco o começo inusitado me prendeu de imediato, mas quando me concentrei no que estava a ver e ouvir em palco deixei-me levar por aquela torrente, um tumulto violento e uma fragilidade imensa. Como li algures, FUCK ME alterna entre o documentário e a ficção, entre a dança e a performance, entre o acaso e a representação, e conta-nos a história de um corpo que envelheceu, que se destruiu, que secou, que se automutilou a dançar e que agora já não consegue dançar, que já não consegue nada, um corpo que mirrou e que apenas sobrevive, e que num jogo de espelhos se projeta ...

Das campanhas icónicas - Chanel

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  Penélope Cruz e Brad Pitt, charme a rodos neste anúncio da Chanel que recria uma cena de um filme antigo de Claude Lelouch. Tão simples, parece, não parece?  

Das séries que eu vejo - Beef (Rixa)

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  Não me parece que a série ‘Beef’ – ou ‘Rixa’ na versão portuguesa – seja propriamente uma comédia, tem muito humor, está carregadinha de sarcasmo, é uma paródia delirante sobre a raiva, a angústia, o aborrecimento, e as energias zen para combatermos a raiva, a angústia e o aborrecimento, e mistura cenas de pancadaria e perseguição com cenas fofinhas de meninos de coro de igreja ou o mundo celestial de quem consome e paga milhões por arte e por plantas miraculosas, ‘Beef’ é uma série cheia de camadas mas é uma série leve, despachada, divertida, mas não propriamente uma comédia, pelo menos a mim não me fez rir. Estreada há quase um ano na Netflix, acabou de arrecadar tudo o que são prémios para melhor minissérie de 2023 (globos de ouro, emmys e mais uma dúzia deles).    

Das lendas vivas - Barbra Streisand

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  Barbra Streisand é uma artista consagrada e multifacetada mas pouco reconhecida pelo público, aliás, muito esquecida pelo público, quem se recorda nos dias de hoje de Barbra Streisand? Fiquei por isso muito contente com a merecidíssima homenagem que lhe fizeram há poucos dias na cerimónia de entrega dos prémios SAG Awards , porque Streisand é uma talentosa cantora, compositora, argumentista, produtora e atriz. Nascida numa família disfuncional e pouco endinheirada de Brooklin, judia, com um nariz pouco fácil, Streisand não pode estudar porque teve de se fazer à vida ainda adolescente, e para além da artista a quem aqui presto homenagem, Barbra Streisand sempre quis intervir politicamente na sociedade americana, convicta e militantemente democrata, sempre lutou pelas causas dos direitos civis, numa altura em que ainda não era uma mulher influente e numa altura que seria até fisicamente arriscado fazê-lo (anos 60 na América profunda), sempre desafiou os grandes estúdios norte-americano...

Da atualidade política - as arruadas e os jotinhas

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Por estes dias cruzei-me com uma arruada dos partidos em campanha para as eleições legislativas, por sinal da AD, nestas alturas cruzo-me inevitavelmente com elas, e se for incauto o suficiente para atravessar o Chiado na última sexta-feira então arrisco-me a cruzar com várias caravanas ao mesmo tempo, como se os turistas que por lá andam fossem potenciais eleitores, mas lá vão os jotinhas efusivos a agitar bandeiras, a assobiar os apitos, com os punhos erguidos a gritar o nome dos partidos, os fotógrafos ou os câmaras da televisão a abrir caminho, e se o líder participar no cortejo os seguranças, toda um desfile encenado – serei só eu a achar isto tão anacrónico, tão século XX, tão pateta? Tudo isto para mostrarem nas televisões o contacto com o povo e para virem todos dizer que as sondagens não importam, o que importa é ganharem a rua? Naturalmente que os candidatos têm de sair da redoma da Assembleia da República e das sedes dos partidos e virem ouvir as queixas ou os inventivos dos...

Dos filmes que vejo - A Sociedade da Neve

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  Em 1972, um avião que transportava uma equipa de rugby e alguns familiares de Montevideo para Santiago do Chile despenhou-se na gelada cordilheira dos Andes, sendo o filme espanhol “ A Sociedade da Neve ” precisamente sobre a história dos 29 sobreviventes à queda do avião da Força Aérea do Uruguai, e não sendo, na minha opinião, merecedor da nomeação para o Óscar de melhor filme estrangeiro, ainda assim este sucesso da Netflix é sem dúvida um filme bastante interessante, não tanto por ser uma espécie de documentário muito fiel ao que possa ter acontecido, mas sobretudo por nos confrontar com o dilema que todos nós sentiríamos sobre os limites éticos aceitáveis para lutarmos pela nossa própria sobrevivência, muito interessante a forma como aquele grupo se conseguiu unir de forma tão solidária perante uma situação tão desesperante.