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A mostrar mensagens de novembro, 2024

Dos filmes de que eu gosto - Blitz, de Steve Mcqueen

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Blitzkrieg é uma palavra alemã que significa guerra-relâmpago, origem do nome pelo qual é conhecido o período da história em que as cidades inglesas foram severamente bombardeadas pelas tropas nazis durante a segunda grande guerra, Blitz , que também dá nome ao título do novo filme de Steve Mcqueen. Por aparecer em muitas listas de favoritos à nomeação de melhor filme para os Óscares, e, sobretudo, pela admiração que tenho pelo realizador ( Fome , Vergonha , 12 anos de escravo , entre outros), tinha as expetativas muito em alta, e não posso de todo dizer que Blitz é um mau filme, nada disso, é um filme belíssimo, mas, admito, ficou muito aquém do que prometia, ou de que eu desejava. No núcleo da história, uma mãe (Saoirse Ronan) tem de se afastar do seu filho de nove anos (Elliot Hefferman) quando as crianças londrinas são evacuadas à força para o campo, filho esse que ao fugir inicia uma aventura para conseguir regressar a casa da mãe e do avô, havendo depois vários temas satélite, a...

Da atualidade - o ego de Boaventura Sousa Santos

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  Talvez nunca tenha recuperado do trauma de, numa vida muito longínqua, ter sido obrigado a estudar textos do sociólogo Boaventura Sousa Santos, admito que por isso a minha embirração com o senhor seja pouco isenta, ainda assim foi com algum espanto que li os termos em que redigiu o comunicado em que apresenta a sua demissão do Centro de Estudos Sociais de Coimbra, no qual o “ renomado investigador internacional ” descansa o povo português porque a sua renúncia “ não significa desistência, significa sim que se vai centrar noutras lutas bem mais importantes para a universidade, para a ciência e para o mundo ”. Independentemente das acusações de que é alvo, diz-nos a prudência e a Constituição que até condenação em sede própria o senhor investigador renomado internacionalmente é inocente, mas não há como não registar que o tamanho do ego do senhor investigador renomado internacionalmente é maior do que o mundo, e só por isso já não devia ter lugar de destaque nas Instituições portuguesa...

Dos filmes de que gosto - Conclave, de Edward Berger

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  Depois do fabuloso ‘A Oeste Nada de Novo’, o suíço Edward Berger realizou agora CONCLAVE, sobre o processo cardinalício para eleição de um novo Papa, todo um mundo de rituais e secretismos em que os interesses e regalias da Cúria parecem sobrepor-se ao que deverá ser o melhor para os crentes na Igreja Católica, um filme austero e sóbrio, com excelentes diálogos a sustentar um thriller de intriga política com a dúvida da fé, CONCLAVE é um bom filme, não obstante alguns desvarios sem necessidade lá mais para o final, o twist dos últimos cinco minutos pareceu-me desnecessário e não se percebe o que acrescentou o espalhafato da cena do rebentamento da bomba. O talento de Isabella Rossellini e Stanley Tucci merecem ser premiados, mas Adrien Brody em O Brutalista tem de ser mesmo de outro mundo para impedir que Ralph Fiennes arrecade o Óscar para si, que portento nas suas hesitações e conflitos íntimos. A nomeação para melhor filme do ano também é quase certa, e não me choca se assim acont...

Das séries de que gosto - Becoming Lagerfeld

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  Becoming Lagerfeld é uma minissérie francesa de seis episódios sobre a ascensão do alemão Karl Lagerfeld nos meandros da alta costura de Paris dos anos 70 e 80, enquanto vamos assistindo à construção da persona icónica que conhecemos de rabo de cavalo e óculos escuros cheia de maneirismos, que na sua rivalidade com Saint Laurent tem de superar o estigma dos donos da finesse e do bom gosto parisiense, vemos também como é que um homem poderoso com um ego do tamanho do mundo perante os holofotes é ao mesmo tempo absolutamente dependente e vulnerável de um amor que o maltrata. Não é alta televisão, mas é puro entretenimento que sem se pôr nos píncaros nos sabe entreter neste mundo de aparente frivolidade, com o fausto, glamour e alguma coscuvilhice dos grandes costureiros. Muito bem a dupla de protagonistas, Daniel Bruhl e Théodore Pellerin. Na Disney+.  

Dos livros e das séries que amamos - A Amiga Genial

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  Amizade, inveja, vingança, ambição, ciúmes, crime organizado, misoginia, luta de classes, encontramos tudo isto na obra-prima de Elena Ferrante, A Amiga Genial acompanha duas miúdas napolitanas ao longo de seis décadas, num autêntico fresco dos costumes e da política da sociedade italiana, o comunismo e o fascismo, o boom económico, a emancipação da mulher, o direito ao divórcio, a corrupção das instituições, a escola como única forma legítima de elevador social, no fundo a história de todo o Sul da Europa, tudo com uma subtileza intimista e uma força coletiva tão crua, potenciada pelo uso do dialeto napolitano, que não descansei até ter visitado Nápoles, para respirar um pouco o ar daquele caos e daquelas personagens, tendo o livro alcançado grande consagração a nível mundial, recentemente uma sondagem do New York Times considerou-o como o melhor livro (na verdade são quatro) do século XXI. Estranhamente, muito estranhamente, a série homónima da HBO, com a própria Elena Ferrante ...

Das séries de que gosto - Disclaimer

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Disclaimer ( the past always find you ) é a série de quem toda a gente está a falar, minissérie de sete episódios realizada pelo oscarizado realizador mexicano Alfonso Cuarón. Nem tudo o que parece é, e cada vez mais é fácil sermos precipitados nas nossas conclusões, sobretudo numa era em que a ficção cada vez mais se sobrepõe à realidade, sendo Cuarón mestre em nos envolver e contar a mesma história de várias maneiras diferentes, desvendando aos poucos o novelo da história, não se podendo desenvolver muito mais para evitar spoilers indesejados. Desde que foi apresentada no Festival de Cinema de Veneza, Disclaimer tem vindo a ganhar um hype de série sensação, para alguns a melhor série do ano, para mim não chega a tanto, falta-lhe algum ritmo ou intensidade, mas pela mão dos melhores tem seguramente uma boa nota, nomeadamente os atores, a infalível Cate Blanchett, Kevin Kline que não via há tantos anos e está um velho de primeira, a britânica pouco aproveitada Lesley Manville ou o vu...

Dos filmes de que gosto - Emilia Perez, de Jacques Audiard

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  Pode não ser um grande filme dramático, mas é inquestionavelmente um filme grandioso. É também um grande musical, numa história falada em espanhol de crime e redenção com muita pancadaria pelo meio. Jacques Audiard, o realizador e argumentista francês, costuma oferecer-nos filmes em que as personagens atingem maior profundidade dramática, por exemplo Dheepan ou Ferrugem e Osso, em Emilia Perez não há tempo suficiente para dar corpo às personagens, as peripécias de Manitas del Monte, o chefe de um cartel mexicano, e as exigências de um musical assim não permitiram, mas temos uma história contada com muita criatividade, com canções e coreografias muito bem conseguidas, em que um conjunto de mulheres consegue a proeza de converter uma temática de machos num filme feminino, aqui são as mulheres que imperam, nesta história de metamorfoses e transformações em que o bem vive de mão dada com o mal. Cannes atribuiu, merecidamente e de forma inédita, o prémio de melhor interpretação feminina n...

Das coisas da Política - chorar ou esquecer?

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  Nos últimos dias tenho pensado em partilhar convosco alguns estados de alma sobre alguns factos políticos, sobre a desesperançada derrota de Kamala Harris e a forma como ilusoriamente acreditei que podia vencer, sobre como de repente passou a ser uma péssima candidata que fez uma campanha terrível, e de como afinal Trump nem é assim tão mau, se fosse os mercados não teriam disparado nem teria tido tantos eleitores a votar nele, porque a democracia exige que tenhamos de reconhecer que o eleitor médio dos EUA tem padrões de exigência elevados, eufemisticamente falando, que não são racistas, sexistas e pouco inteligentes, é inegável que os democratas esqueceram os metalúrgicos e é Elon Musk quem os vai proteger, ou a forma como Zelenski felicitou Trump pela sua impressionante vitória , ah pois pudera, o homem está a ver a coisa negra mas talvez fosse escusado tanta subserviência, de Netanyahu já nem falo, é mau demais, ou então poderia discorrer sobre o saco de pancada do autarca de Lou...

Dos filmes que amamos - A Vida Entre Nós, de Stéphane Brizé

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  Assim que descobri quem eram os protagonistas do novo filme de Stéphane Brizé, consagrado realizador francês mais habituado a filmes de causas ditas sociais, soube logo que não podia perder este A Vida Entre Nós (Hors-Saison, no original) – o francês Guillaume Canet, que realizou um dos filmes da minha vida, e protagonizou outro, e a italiana Alba Rohrwacher, desde 2009 no topo das minhas atrizes favoritas, simplesmente maravilhosa em tudo o que faz. A viver uma depressão e com uma crise existencial de meia-idade, o famoso ator cinquentenário Canet foge para uma pequena vila balnear na Bretanha, Quiberon, e por casualidade reencontra um velho amor, Rohrwacher, que abandonou 15 anos antes, e nesses 15 anos a vida continuou, as memórias apagaram-se, as feridas sararam, mas o desgosto de um grande amor deixa sempre uma cicatriz qualquer. Hors-Saison é sobre as consequências das ações que tomamos ou deixamos de tomar, mas também daquelas que tomam por nós, é a história de um amor que nã...

Dos filmes que adoramos - Mais Do Que Nunca, de Emily Atef

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  Mais Do Que Nunca, Plus Que Jamais no original, filme da realizadora franco-iraniana nascida na Alemanha, Emily Atef, é um filme dolorosamente triste, não sendo de todo lamechas e poupando-nos à crueldade explícita da morte, sobre como a aceitar e saber viver os últimos dias que nos restam, a dor do doente que tem de enfrentar a compaixão de quem o rodeia, a necessidade que Hélène tem de partir sozinha para bem longe para se conectar à natureza e não ser apenas uma pessoa condenada, e o sofrimento de quem a ama e não sabe como lidar com isso, que se sente rejeitado e impossibilitado de poder ajudar, de dar a mão, de aproveitar todos os minutos que ainda lhes restam juntos, bem-aventurados aqueles que não se revoltam com o fim anunciado e concentram a sua energia em serem donos do seu próprio destino,   procurando uma espécie de libertação, vivendo. Como é dito algures, os vivos nunca entendem os moribundos, duro, mas entre a força de quem parte e o amor de quem deixa partir, Mais Do...

Dos filmes de que eu gosto - Anora, de Sean Baker

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  Não aderi de imediato ao filme, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, estava à espera de uma comédia romântica na onda do Pretty Woman da Julia Roberts e Richard Gere, mas Anora não é nada disso, esta história sobre uma acompanhante de luxo e as oligarquias russas começa logo ligada à corrente, alta voltagem, com muita nudez e sexo encenado, constante, repetido, a um ponto que me estava a parecer gratuito e aborrecido, mas depois de nos acomodarmos à cadeira vamos aderindo àquele ritmo frenético e ao registo de comédia hilariante, nem sempre de rir a bandeiras despregadas mas soltamos umas boas gargalhadas, a sala estava empolgada, e as peripécias a desenrolarem-se umas atrás das outras, divertidas, apenas isso, e seria isso suficiente para trazer tantas honras a este tão premiado Anora, parecia-me pouco, mesmo com atores superlativos naquele linguajar russo faltava alma ao filme, até que uma das personagens secundárias, Igor, começa a trazer uma doçura inesperada e desconcertante ao ...

Das séries de que gosto - O Casal Perfeito

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  O Casal Perfeito é uma minissérie de seis episódios de puro entretenimento, crime e mistério no privilégio da alta sociedade americana, aquela em que normalmente os maus safam-se sempre no final, vê-se com atenção, e surpresa, até ao final. O elenco é excelente, a começar pela filha do Bono Vox que eu desconhecia, Eve Hewson, mas também Liev Schreiber, Dakota Fanning, Meghann Fahy, com destaque para a super talentosa Nicole Kidman, pode estar plastificada mas continua bonita e será sempre uma das atrizes mais incríveis que temos, muito bem. E o genérico inicial, há alguém que salte a introdução e dispense aquela dança coreografada tão contagiante? Na Netflix.  

Da atualidade política - o sem dó nem piedade do autarca de Loures

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  Consciente de que os sucessivos governos PS que temos tido foram-mo com uma matriz muito mais centrista do que socialista, ou esquerdista, revejo-me e tendo a concordar com a análise de David Dinis que considera que nos últimos anos o eixo político tem-se transferido tanto para o espectro da direita, que uma pessoa, outrora considerada de direita, hoje pode ser facilmente rotulada de esquerda, ou do centro. Mas o contrário também acontece, uma pessoa que se distancia de uma qualquer posição política da esquerda, é logo associada à extrema-direita, cada vez nos afastamos mais de um centro sensato e nos empurramos para os extremos exacerbados. Sem dó nem piedade , o autarca de Loures, Ricardo Leão, defendeu que os responsáveis pelos tumultos nas ruas condenados pelos tribunais devem ser postos na rua quando forem titulares de contratos de arrendamento em casas municipais, sem dó nem piedade , por, entre outras explicações, tal vir a ser dissuasor de novos episódios. Com pouquíssimas ex...