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A mostrar mensagens de outubro, 2025

Dos filmes que adoramos - Depois da Caçada, de Luca Guadagnino

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  Depois da Caçada, do realizador italiano Luca Guadagnino, passa-se na comunidade intelectual da Universidade de Yale, nos EUA, e é um filme profundamente intelectual, daqueles que não nos facilita a vida, que nos dá muito texto e exige que estejamos concentrados no que estamos a ver para não perdermos o fio à meada. Uma universidade americana está sempre na vanguarda do que se passa no mundo, nesta discussão dos símbolos e dos estereótipos de ser homem ou ser mulher, no poder enraizado, no ativismo que ao contrariar a corrente pode inverter e subverter as cadeias de poder, no cancelamento, na dúvida, eu lanço a acusação para o ar e fica a suspeita, como lidar com a verdade ou com a falta dela, como ser moderado e evitar que se prejudiquem pessoas inocentes. Em Depois da Caçada não há moralismos nem verdades absolutas, mas há uma procura do bem e da moral. Se Julia Roberts é incrível, tenho de destacar também o eterno esquecido Michael Stuhlbarg, mais uma vez a brilhar bem alto num fi...

Das séries de que gosto - Task

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  Há séries medianas que de tão boas são excelentes, é o caso de Task , série negra policial dos mesmos autores de Mare of Easttown , também ela excelente. Sempre nos subúrbios sombrios de Filadélfia, o terreno que o autor melhor conhece, Task tem crime, tem gangues do mal, tem polícias bons e polícias maus, tem drama familiar, luto, personagens deprimidas, luta de gerações, dúvida moral, tem suspense, tensão e mistério, tudo isto com atores formidáveis liderados por um senhor chamado Mark Ruffalo. Gostei muito, sete episódios que passaram a voar. Na HBO Max.  

Dos espetáculos que vejo - Os Maias, pela Companhia Nacional de Bailado

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  A Companhia Nacional de Bailado levou à cena Os Maias, um bailado em três atos a partir da obra de Eça de Queiroz, uma estreia absoluta com coreografia e dramaturgia de Fernando Duarte. Não será muito abonatório dizer que as coisas que mais me encheram o olho, ou o ouvido, foram o pianista António Rosado e os solistas da Orquestra de Câmara Portuguesa, o riquíssimo guarda-roupa de José António Tenente ou os cenários e os videogramas com Lisboa em pano de fundo, quanto à dança em si, digamos, teve os seus momentos. Pessoalmente não gostei nada do primeiro ato. Não percebo absolutamente nada de dança, não tenho quaisquer conhecimentos técnicos, mas enquanto espetador achei mal dançado, os desequilíbrios constantes, as piruetas interrompidas e aos saltinhos, as elevações que mal tiram os pés do chão, um corpo de baile com total falta de sincronismo, quando uns subiam a perna estavam já outros a descer, um Afonso da Maia sofrível, uma trapalhada – aprecio a emoção, o movimento, a fluidez...

Dos filmes que adoramos - Springsteen - Deliver Me From Nowhere, de Scott Cooper

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  Bruce Springsteen será a estrela internacional que mais admiro no mundo da música pop-rock, não só pelas suas canções, sobretudo pelas suas canções, mas também pelo exemplo e pelo farol que sempre tem sido, a sua voz contra o que se passa hoje na América faz-se ouvir bem alto e sem medo, disclaimer feito, este texto não tem nada de imparcial. Esperei ansiosamente pelo dia de ir a uma sala de cinema ver Springsteen – Deliver Me From Nowhere , escolhi uma sala grande, com um bom sistema de som, a sala não estava cheia, estava a 2/3, algumas t-shirts pretas do Boss, do meu lado esquerdo dois americanos com ar de motoqueiros acabados de chegar para uns dias de férias, do meu lado direito um jovem educadíssimo que não resistia a levantar os braços no ar sempre que ouvia os primeiros acordes de uma canção, um avô com o neto de 20 e poucos anos, famílias de várias gerações, espetadores ávidos do que iam ver quase em modo de oração tal o respeito e a admiração que sentem por Springsteen, es...

Das séries de que gosto - Homicídios ao Domicílio (Only Murders in the Building)

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  Já faz algum tempo desde a última vez que fiz uma partilha sobre séries, mas agora, que já só me falta o último episódio da 5ª temporada, já vos posso dizer porquê (como se alguém estivesse minimamente interessado 😊): estive a ver de enfiada todas as temporadas de Homicídios ao Domicílio. Only Murders in the Building deve ser das séries mais desvalorizadas dos últimos anos, uma eterna perdedora nas suas quase 300 nomeações para prémios (ultimamente sempre derrotada para Hacks e The Bear ), sobretudo porque é uma série que não se leva muito a sério, paira sobre si uma aparente leveza e futilidade mas Only Murders in the Building é um primado de humor, crime e mistério, um humor rocambolesco e muitas vezes bem ácido e negro, não soltamos gargalhadas de segurar a barriga mas estamos sempre a rir com as entrelinhas e o caricato das situações. A tripla de atores, Steve Martin (também autor), Martin Short e Selena Gomez, parece um pouco inusitada no início, mas não demora muito a estar...

Dos espetáculos de que gosto – Rita Cabaço em Coelho Branco, Coelho Vermelho, de Nassim Soleimanpour

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  Coelho Branco, Coelho Vermelho não tem encenador, nem ensaios, tem um texto fechado num envelope que é entregue a um ator já em cima do palco, que o abre em frente ao espetador e o interpreta consoante a sua sensibilidade, capacidade de improvisação e reação do público sentado na plateia, por isso esta peça, representada tantas e tantas vezes por esse mundo fora, por tantos atores consagrados, é sempre uma experiência única. Em 2010, Nassim Soleimanpour, com cerca de 30 anos, vivia isolado em Teerão e impedido de sair do Irão, por se ter recusado a cumprir o serviço militar, escreveu esta peça na esperança de assim se conectar com o mundo, na esperança que eventuais espetadores entrassem em contacto consigo, via email, dizendo-lhe um simples olá, talvez assim se sentisse um pouco menos sozinho no seu caminho. Coelho Branco, Coelho Vermelho não é propriamente um texto político, mas reflete um regime autoritarista e o preço a pagar por quem lhe desobedece, tendo por isso alguns momento...

Dos espetáculos que vejo - Entre outras coisas, a pereira e o real, de Miguel Pereira e Sílvia Real

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  Os coreógrafos e bailarinos da nova dança portuguesa dos anos 90, Miguel Pereira e Sílvia Real, juntaram-se para esta performance “Entre Outras Coisas, a pereira e o real”. O trocadilho do título marca o tom de comédia que atravessa a peça, um denominador em todas as peças de Miguel Pereira (não conheço tão bem a obra de Sílvia Real), neste espetáculo fragmentário que me deixou algo nostálgico, sentir a inquietação daquelas personagens em palco, meios perdidos num mundo que não só os assusta mas onde têm dificuldades em se encaixar, pelo menos foi isso que eu senti. Depois de ter passado por terras como Torres Novas e Castelo Branco, esteve dois dias no CCB em Lisboa, no dia que eu assisti não seríamos mais de 30 pessoas, difícil a vida para os artistas que não dominam as artes e as redes de fazerem chegar a sua obra a mais público – eu cá conseguir ir e gostei muito.  

Dos filmes que adoramos - Manas, de Marianna Brennand

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  Não fosse uma pessoa que muito prezo ter-me enviado um vídeo com a Julia Roberts e o Sean Penn muito comovidos e entusiasmados a falarem do filme MANAS, e este filme ter-me-ia passado algo indiferente enquanto esteve em exibição nas salas de cinema. A brasileira Marianna Brennand investigou durante 10 anos estas histórias de gerações de meninas da ilha de Marajó, na região amazónica do Pará, e realizou este filme que promove a transformação social, quebra silêncios, provoca empatia e mobiliza , impossível ser indiferente a este belíssimo filme, diretamente para as listas dos melhores do ano, o cinema brasileiro continua a dar cartas no panorama mundial.  

Das coisas de cinema e das despedidas - Diane Keaton

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  Hollywood adorava-a, mas tive sempre a sensação de que o mundo nunca a celebrou como merecia, talvez por não se levar muito a sério e cultivar o seu lado irreverente, quase sempre de chapéu, calças e gravata, talvez por adorar fazer comédias de baixo orçamento, tinha um tempo de humor absolutamente notável – Alguém Tem que Ceder , ao lado de Jack Nicholson é uma das minhas comédias preferidas de sempre -, talvez por estas gerações nunca terem visto as suas obras-primas dos anos 70 e 80, tantos papeis onde nos entregou uma vulnerabilidade incrível, como não amar a maior das divas de Woody Allen? O meu total fascínio por Manhattan e Nova Iorque nasceu com ela, morreu uma das minhas atrizes preferidas, Diana Keaton, triste.  

Dos filmes de que gostamos - Lavagante, de Mário Barroso

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  Gostei muito de muitas coisas no Lavagante de Mário Barroso, gostei menos de outras, mas depois já gostei mais das coisas de que tinha gostado menos, e no fim já não sei bem se não gostei de facto de alguma coisa, o que eu sei é que Lavagante é um filme português que merece muito ser visto. O tom excessivamente melancólico, um pouco lento, de Francisco Froes e de Nuno Lopes foi o que me suscitou mais dúvidas, mas depois até me fez sentido naquelas personagens tão nostálgicas e vulneráveis, num retrato histórico tão bem conseguido dos anos de mordaça, de vigilância, de perseguição e de tortura. O argumento, de António Pedro Vasconcelos a partir de uma novela de José Cardoso Pires, é muito rico, com camadas muito profundas, onde nem tudo o que parece é, mas ao belíssimo texto – que bonita a metáfora do lavagante e do safio - o realizador junta a sua própria fotografia, esplendorosa, a preto e branco, e a música de Mário Laginha. Se tudo isto já é francamente bom, falta o melhor, uma at...

Dos ciclos de cinema - Os Anos de Ouro do Cinema Italiano

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  No Teatro Campo Alegre, no Porto, já terminou, mas ainda está a decorrer no cinema Nimas, em Lisboa, um ciclo de cinema dedicado aos “Anos de Ouro do Cinema Italiano”, período áureo que começou logo a seguir ao final da Segunda Grande Guerra. O programa é vastíssimo, 15 realizadores, 51 filmes, alguns inéditos em sala, muitas cópias restauradas, escolher o que ver é que era difícil, por isso concentrei-me num realizador de quem, creio, nunca tinha visto nada antes, Roberto Rossellini, muito reconhecido pela profunda sensibilidade histórica e humana dos seus filmes, um dos pais do neo-realismo italiano (e pai também de Isabella Rossellini, já agora). O meu preferido foi Roma, Cidade Aberta (1945), um retrato poderoso da resistência italiana durante a ocupação nazi, símbolo da dignidade em termos de opressão, filmado logo após a libertação de Roma, combina ficção com documentário, a urgência e o sofrimento de um povo em luta. A atuação de Anna Magnani é memorável, a cena em que corre...

Dos filmes que adoramos - Sinners, de Ryan Coogler

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  Assumo o meu preconceito com filmes sobre vampiros, não vejo, não porque tenha medo, mas porque me entediam, e não fosse ser um dos grandes favoritos para as nomeações para os Óscares do próximo ano – num ano que vai ser de Batalha Atrás de Batalha e de Hamnet – e eu teria perdido este Sinners , realizado por Ryan Coogler e passado no início do século XX no Delta da América, o Mississípi. Ele é drama racial, é história, é terror, vampiros, é puro entretenimento com muitas camadas de consciência política e de poesia pelo meio, ele é o blues da música negra com o folk irlandês dos brancos, e numa cena de antologia, em que mistura presente, passado e futuro, ainda consegue meter música eletrónica. O estilo e a estética do filme são lindíssimos, e uma pessoa acaba o filme meio azamboado – um dos melhores filmes do ano. Na HBO Max.  

Da atualidade - eu, vítima me confesso da novela dos Anjos

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  No rescaldo do desfecho da novela dos Anjos contra a Joana Marques, não me regozijo por a democracia e os nossos direitos fundamentais continuarem a respirar melhor nesta era Trumpiana , e não me regozijo porque me confesso uma vítima de todo este processo, sim, porque a minha música de Natal nunca foi a célebre canção de Mariah Carey, nem o Last Christmas dos Wham, nada disso, foi sempre a Noite Branca dos Anjos, chamem-me piroso à vontade. E agora, como vou abrir as hostes natalícias sem este precioso guilty pleasure , sim, porque anjinhos chico-espertos estão fora para sempre das minhas bandas sonoras, qual honra qual carapuça.  

Dos filmes de que gostamos - Uma Grande, Corajosa e Bela Viagem, de Kogonada

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  Uma Grande, Corajosa e Bela Viagem, do realizador koreano Kogonada, pode muito bem ser a comédia romântica do ano, doce, onírica e com muita fantasia pelo meio. Temos um homem e uma mulher, solteiros, mais ou menos por opção, têm medo de se magoar e de serem magoados, e quando uma agência casamenteira os junta, numa grande, corajosa e bela viagem de carro, obriga-os a abrirem umas portas do seu passado, onde todos teremos os nossos traumas que nos dificulta o caminho. Serei insuspeito, nunca fiz parte do clube de fãs de Colin Farrell e Margot Robbie, mas a chispa entre os dois é tão forte que quase se toca, com Farrel a brilhar lá nas alturas, acompanhado também por dois secundários maravilhosos, o mestre Kevin Kline e a desbocada Phoebe Waller-Bridge. Entrei na sala sem saber ao que ia, palpita-me que metade da sala se entediou, mas estes filmes médios muitíssimo bem feitos são sempre um gosto imenso.  

Dos lugares bonitos - Quinta da Regaleira, em Sintra

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  Numa noite de início de outono, quente, estrelada e sem vento, tive a oportunidade de fazer uma visita-guiada à Quinta da Regaleira. No dealbar do século XX, no espírito da arquitetura romântica que era Sintra, a família Carvalho Monteiro, com a sua fortuna do Brasil e apaixonada pela botânica, mandou vir um arquiteto italiano para construir um imponente palacete, num ecletismo de estilos, manuelino, renascentista, medieval e clássico, rodeado de um muito frondoso e vasto jardim, onde tudo tem um significado, das trevas para a luz, da morte para a vida, do religioso ao pagão, da igreja católica aos ideias maçónicos, que sítio este tão bonito para visitar.