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A mostrar mensagens de outubro, 2024

Dos meus livros - Less, de Andrew Sean Greer

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  LESS, do escritor californiano Andrew Sean Greer, vencedor do Prémio Pullitzer em 2018, é um romance divertido ou satírico, como preferirem, escrito (muito bem escrito, diga-se) de forma leve e despretensiosa, sobre Arthur Less, um escritor falhado, sem dinheiro e prestes a fazer 50 anos, que, para fugir ao casamento do seu ex-namorado, resolve aceitar todo o tipo de convites para eventos literários e foge para o outro lado do mundo, é a história de um falhado, rodeado de egos gigantes, que parece não aceitar o seu envelhecimento mas que parodia com a sua vaidade e ansiedade da forma que só aqueles que se riem de si próprios sabem fazer, sem autocomiseração, um sedutor com graça. Nesta história em que todos falham, sem vidas perfeitas, em que as pequenas desgraças se sucedem, em que as personagens têm medo de chegar aos 50 e convencem-se que têm de desistir do amor e começar a engordar convictamente, há espaço para a ingenuidade de quem afinal nunca deixou de acreditar no amor e na f...

Dos espetáculos de que gosto - Supernova / The Look

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  Um bailado por dia, não sabe o bem que lhe fazia. Ok, há um exagero nesta frase só para preservar a rima, mas vermos corpos a dançar, levados pela coreografia, pela música, pelas luzes, não precisarmos sequer de um texto para apreciarmos e sentirmos simplesmente prazer com o movimento, com as linhas, a conjugação de uma expressão visceral ou sensível com uma técnica exímia – sim, não suporto matacões a dançar, num palco, entenda-se -, ver um espetáculo de dança, seja contemporânea, um ballet clássico ou folclore, é das coisas que mais prazer me dá. A Companhia Nacional de Bailado regressou a sua casa ao fim de largos meses fechada para obras ao abrigo do PRR, o Teatro Camões, na Expo, e estreou duas peças novas no seu repertório, Supernova, da dupla de coreógrafos Iratxe Ansa (espanhola) e Igor Bacovitch (italiano), e The Look, da israelita Sharon Eyal, não sei de qual gostei mais, adorei profundamente ambas as peças, vibrantes, intensas. E que excelente corpo de baile, a brilhante t...

Dos filmes que vejo - The Apprentice, A História de Trump, de Ali Abbasi

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  The Apprentice – A História de Trump, do iraniano Ali Abbasi, é um bem intencionado filme estreado a tempo das eleições norte-americanas, recordando a quem queira ter dúvidas como é que um escroque presidencial era enquanto jovem à procura do sucesso, um corrupto sem escrúpulos, caloteiro, misógino violador dono de uma vaidade insana, já então defensor de duas velhas máximas, nunca admitir uma derrota e repetir uma mentira as vezes necessárias para parecer uma verdade, e nesse aspeto o filme cumpre, são duas horas sem rasgo de bom entretenimento que nos aumenta ainda mais a repulsa e o medo que já sentimos por este homem, Donald Trump. Além da fotografia da Nova Iorque decadente dos 70 e 80, destacam-se duas interpretações, a de Sebastian Stan que mimetiza na perfeição todos os tiques, trejeitos e entoações de Trump (nunca antes tinha visto este Sebastian Stan, um dos atores mais badalados do momento), e, sobretudo, a de Jeremy Strong, com uma nomeação muito bem encaminhada para o ós...

Da atualidade política - as aulas de cidadania e o PSD medieval

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  Nas aulas obrigatórias da disciplina de Cidadania, do quinto ao nono ano, devem ser abordados temas como direitos humanos, civismo, multiculturalidade ou sustentabilidade, não contestando eu que haja margem de melhoria na forma como estes conteúdos são estruturados e transmitidos aos alunos, nem ignorando tão pouco que os alunos se estão a marimbar para a disciplina, um desperdício de tempo, pensarão, até aqui tudo bem, a porca começa a torcer o rabo quando começamos a entrar nos caminhos da saúde, não tanto quando aborda coisas como a alimentação ou as drogas, mas sim quando a escola quer impingir uma cartilha sobre a sexualidade, o escândalo é quando um qualquer professor vem doutrinar as minhas crianças sobre a diversidade sexual, a identidade de género, a contraceção ou a gravidez na adolescência, ou até mesmo sobre o afeto e respeito na sexualidade, aqui d’el Rey que as minhas crianças vão ser contaminadas por uma qualquer doença libertária. Mas fiquemos descansados, temos Monte...

Dos espetáculos que vejo - Dear Evan Hansen

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  Tinhas as expetativas em alta, convenci-me que nada podia falhar neste DEAR EVAN HANSEN, a adaptação portuguesa em cena no Maria Matos, um muito premiado musical da Broadway, daqueles inspiracionais com músicas catitas, da malta que compôs o La La Land, e que no final nos deixa com um sorriso nos lábios, com o bónus de ter a Gabriela Barros no elenco de quem eu tanto gosto, pois bem, um verdadeiro fiasco. Torci logo o nariz na primeiríssima cena, a forma frenética e apatetada como o protagonista teclava no computador, e esse foi o tom de todo o espetáculo, pateta e infantil, com os versos das canções carregadinhos de palavras que não encaixavam com a métrica das melodias, até eu ficava sem respirar ao tentar, sem sucesso, perceber o que os jovens atores estavam a cantar, um som péssimo, inaudível, sobretudo quando a banda em palco tocava ao mesmo tempo. Não posso dizer que o elenco juvenil seja canastrão ou que desafine a cantar, mas não funciona de todo, sem qualquer carisma e incap...

Dos espetáculos de que gosto - Class Enemy

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  Um cheiro opressor na sala, um cenário desarrumado, escuro, não se percebe bem o que é, uma cave esquecida de uma qualquer escola de um subúrbio complicado, seis garotos a dar pontapés numa bola, balázios com força que com sorte ainda te acertam em cheio, uma música estridente tocada ao vivo que te buzina ouvidos dentro, asneiredo, impropérios fortes que começam como reações aos xutos na bola mas que rapidamente se transformam na pouca linguagem que estes rapazes têm para se exprimir, uma linguagem violenta que por vezes é um dialeto difícil de acompanhar, lixo acumulado, cuspidelas para o chão, calças descaídas, coçadelas nos genitais, o ambiente é hostil, gera-te desconforto, não te deixa sentar refastelado na cadeira e prende-te à revolta destes seis miúdos em guerra, vítimas e agressores ao mesmo tempo, rejeitados pela escola que não sabe o que fazer com estes alunos problemáticos do nono ano, e esquecidos pela sociedade, alguns mesmos pela família, garotos que comem pão com alho...

Das séries que eu vejo - Monsters, a história de Lyle e Erik Menendez

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  ‘Monsters – A história de Lyle e Erik Menendez’ é a nova série de Ryan Murphy, que em 9 episódios conta a história dos irmãos milionários de Beverly Hills que em 1989 assassinaram os pais a sangue-frio com requintes de malvadez, atingindo o seu ponto alto no episódio #4 onde mergulhamos até às entranhas na cabeça perturbada e doente daquele pai agressor e daqueles irmãos vítimas de um tremendo abuso psicológico e sexual, numa altura em que o abuso era relativizado de uma forma absolutamente inaceitável nos dias de hoje, a violência psicológica deste episódio faz-nos verdadeiramente contorcer no sofá e acreditar que este Monsters versão 2 nos vai levar às cordas mais vezes, na esteira de Monsters versão 1 em que os crimes de Dahmer nos deixavam altamente perturbados, mas desta feita assistimos mais a uma novela sem final feliz do que a uma história de true crime , pena, interessante mas soube manifestamente a pouco. Na Netflix.  

Dos filmes que vejo - Joker, Folie à Deux, de Todd Philips

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  Adorei o primeiro Joker, adoro o Joaquin Phoenix que está fantástico, adoro a Lady Gaga que está igualmente fantástica, adoro musicais, até dos clássicos filmes de tribunais gosto muito, tinha tudo para dar certo, mas com exceção da estética visual e de alguns momentos musicais mais trágicos, ou pungentes, achei o filme um tédio, deveria ter nutrido desde logo grande empatia pelo Arthur Fleck solitário, triste, doente – ou só perverso? – e apaixonado, mas, pelo contrário, não consegui estabelecer qualquer ligação com as personagens, talvez tenha visto o filme no dia errado, não sei, mas não gostei muito.    

Da atualidade política – o orçamento, Montenegro, Pedro Nuno e Alexandra Leitão

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  Pedro Nuno Santos tem mostrado que é hábil em arranjar lenha para se queimar, teria sido tão muito mais simples se tivesse há muito anunciado que o PS viabilizaria o orçamento 2025 com uma abstenção, ou que, ao invés, o votaria contra, sem qualquer negociação, quanto a mim errou quando quis impor a marca socialista num Governo que não o seu, até porque lhe tem corrido tudo mal sempre que abre a boca e no final dificilmente sairá bem da fotografia. Parece-me um pouco contranatura ver o Governo apresentar uma proposta irrecusável desvirtuando por completo o seu programa eleitoral, nessa perspetiva vejo mais as cedências do IRC e IRS Jovem como uma vitória de pirro de Pedro Nuno Santos do que uma boa saída para Montenegro, por muito que este quisesse descalçar a bota do IRS Jovem se não o deixam governar em conformidade com a espinha dorsal da sua estratégia económica devia ir a eleições, mas se Montenegro mais uma vez mostrou ser um taticista e não um primeiro-ministro com uma visão po...

Da nossa sociedade - imigrantes ricos e imigrantes pobres

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  Ainda por ocasião da Festa do Cinema Francês, que eu muito aprecio e à qual procuro sempre assistir, dei por mim, na lotada sala de cinema São Jorge, no meio de uma esmagadora maioria de espetadores franceses, ou francófonos, uma elite que por algum motivo veio morar para Lisboa - muitos para gozar a sua reforma dourada à custa de borlas fiscais de que à época beneficiavam - e que trouxe os seus hábitos culturais, que tem os seus filhos no Liceu Francês ali nas Amoreiras, que arrebanhou todo o bairro de Campo de Ourique e começou a abrir os seus pequenos negócios carregadinhos de um charme burguês do mais bonito que há, comunidade essa que vive fechada no seu mundo privilegiado e que interage o mínimo possível com os locais, diz quem os conhece de perto que nem nos apreciam por aí além e que tão pouco gostam especialmente de Lisboa, dificilmente saem dos seus trilhos, ok, o ar da Caparica já lhes começa a ser respirável e depois há sempre umas vernissages, cocktails ou até mesmo uma ...

Dos filmes de que gosto - Bernadette, de Lea Domenach

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  Fui ao São Jorge ver Bernadette na Festa do Cinema Francês, que vai andar por todo o país até ao final de novembro. Só coisas boas. Ir ver um filme em Lisboa num cinema de rua e sem pipocas é uma raridade, e se for no belíssimo São Jorge o luxo ainda é maior. No cinema francês encontramos sempre verdadeiras joias, seja um cinema mais autoral ou nas comédias que nos levam sempre às lágrimas, e esta Festa é uma excelente oportunidade para descobrirmos sempre um excelente filme, bem hajam os organizadores. E o que eu me ri, de forma tão desbragada, a ver este Bernadette, que mood tão divertido, abençoado filme este em que Catherine Deneuve encarna a ex-primeira-dama francesa Bernadette Chirac, que começa como uma senhora da alta burguesia tonta e antipática, secundarizada e humilhada a toda a hora por todos, incluindo pela sua própria filha, mas no dia em que se farta de ser alvo de escárnio inicia todo um processo de vingança e torna-se uma das pessoas mais admiradas pelos gauleses, s...

Dos grandes campeões - Rafael Nadal

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  É o fim de uma era, Rafael Nadal anunciou hoje a sua retirada do ténis profissional, um enorme campeão dentro e fora dos courts, a competitividade feroz mas sempre correta e amistosa entre os três monstros sagrados do circuíto será algo dificilmente repetível e um exemplo que perdurará para sempre. Obrigado Rafa!  

Da atualidade política - Montenegro, os bons jornalistas e a democracia

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  "Óh Burro, não escreves nada sobre o Montenegro e o jornalismo," perguntaram-me, e eu pensei cá com os meus botões, vontade não me falta mas se calhar não, se calhar não porque não gosto de estar sempre a cascar no nosso primeiro-ministro, acho avisado conceder-lhe algum benefício da dúvida e deixá-lo trabalhar, e, sobretudo, porque não gosto que me soprem ao ouvido sobre que temas é que o Burro deve escrever. Soprar? Óh pá, isto já me soa a qualquer coisa, e na verdade é difícil resistir a comentar alguns (dos muitos) deslizes do nosso Primeiro. Anunciou o Governo um pacote de 30 medidas para ajudar o setor da comunicação social a enfrentar “desafios significativos” e salvaguardar o “pluralismo, a liberdade de informar e a liberdade de expressão, pilares fundamentais da democracia”, muito bem, é preciso fazer alguma coisa para proteger o jornalismo tão em crise nos dias de hoje, sendo a última dessas medidas a “literacia mediática nas escolas”. No melhor pano cai a nódoa, ...

Da atualidade política - o discurso de Carlos Moedas no 5 de outubro

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  Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa, anunciou ao país no seu discurso do 5 de Outubro, que conseguiu “higienizar” ( não é uma citação, só ironia ) a zona circundante da Igreja dos Anjos, tendo instalado em pensões os muitos imigrantes e sem-abrigo que aí viviam em tendas de campismo há meses - muito bem, o país, e eu próprio que resido no bairro, gostámos de saber, abençoado o momento solene que obrigou a malta da Câmara a andar a correr na véspera para se poder propagandear tal feito em tão respeitosa tribuna, as cerimónias oficiais da implantação da república. Não me venham agora dizer que se calhar esta solução já poderia ter sido encontrada há mais tempo, que o fez por estratégia política e não pelo bem-estar e segurança das pessoas ou que a azáfama pelo timing das festividades não justifica a correria com que puseram as pessoas a andar, de maneira que até perderam pelo caminho as suas poucas posses, isso são bocas de quem gosta ser do contra e de estar sempre a malhar ...

Das minhas músicas - O que se quer, de Marisa Monte e Rodrigo Amarante

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Ver um filme quase nunca é só ver um filme, abrimos-nos ao mundo e há sempre qualquer coisa que nos entra porta dentro, há sempre uma descoberta, e através de His Three Daughters cheguei a Rodrigo Amarante, um consagrado músico brasileiro de quem eu nunca tinha ouvido falar, entretanto deu 2 concertos em Portugal e várias entrevistas, e a quem me rendi em absoluto, a gentileza na voz, a empatia, a musicalidade, partilhando aqui esta canção tão sedutora, já de 2011, com Marisa Monte, de quem inexplicavelmente me tenho esquecido nos últimos anos - O que se quer , tão bom.  

Da atualidade política - as boutades de Hugo Soares II

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    Ainda não sabemos o que vai acontecer com o Orçamento Geral do Estado para 2025, Montenegro surpreendeu no nível da "intensidade" das cedências e Pedro Nuno Santos parece ter poucos argumentos para o rejeitar, mas a procissão ainda vai no adro, aguardemos, mas agora que o dossier IRS Jovem parece ultrapassado, recupero um episódio cuja relevância efetiva já expirou, mas aos meus olhos ainda com bastante significado. Já aqui manifestei a avaliação negativa que faço da persona política de Hugo Soares, líder do grupo parlamentar do PSD e negociador avançado com o PS sobre o Orçamento 2025, não aprecio o seu estilo algo arruaceiro, acho que o seu perfil belicoso, beligerante mesmo, não faz bem à política. Montenegro lá achará acertado dar-lhe palco e rédea solta, uma espécie de estratégia pára-raios, enquanto se discute as excentricidades, eufemisticamente falando, de Hugo Soares, folgam as costas do PM, e temos de reconhecer que Hugo Soares não nos facilita a vida, é mesmo d...

Dos filmes de que eu gosto - Lee Miller: Na Linha da Frente, de Ellen Kuras

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  LEE MILLER: Na Linha da Frente (porque é que o título em português não é somente Lee, como no original?) é um filme biográfico sobre a famosa repórter fotográfica dos tempos da segunda guerra mundial, a mesma que se deixou fotografar na banheira de Hitler no próprio dia da morte deste, que deu a conhecer ao mundo os horrores dos campos de concentração e que antes havia sido uma modelo famosa, capa de revista da Vogue e amiga flamboyant de gente como Picasso, Man Ray ou Paul Elouard, uma personagem carismática com uma vida transbordante. A meu ver, o filme peca por querer colar a cuspo algumas mensagens feministas, perfeitamente desnecessárias porque foram encaixadas a martelo na história, vieram a despropósito, e por a personalidade de Lee por si só já ser um manifesto feminista, emancipada, investida, menosprezando a moral, regras e bons costumes que eram impostas às mulheres, sem nunca renegar a sua vulnerabilidade e feminilidade, características que às vezes parecem ser disparatad...