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A mostrar mensagens de maio, 2025

Dos meus livros - A Picada de Abelha, de Paul Murray

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  Quando a leitura de um livro se torna imersiva, me faz querer aproveitar todos os momentos para ler mais uma página e ao fim de mais de 700 páginas não há ponta de cansaço ou aborrecimento, então para mim esse livro já é uma obra-prima, assim foi com A Picada de Abelha , do irlandês Paul Murray. Não será bem uma saga familiar, porque acompanhamos esta família apenas num reduzido intervalo de tempo, ali à volta de um ano, mas mergulhamos na vida dos Barnes, uma família outrora endinheirada, com um avô rico a viver uma reforma dourada no nosso Algarve, antes da crise de 2008 assolar a Irlanda, e percebemos como o passado nunca se resolve sozinho, que um passado mal resolvido corrói-nos em lume brando, quando damos espaço aos nossos fantasmas a comunicação numa família torna-se sempre algo muito difícil. A maioria dos leitores achará que a história se resume a nada e que é tudo muito aborrecido, sem ação para preencher tantas páginas, mas aqueles leitores que se deixam entusiasmar por e...

Das exposições que eu vejo - Paula Rego e Adriana Varejão, no CAM da Gulbenkian

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Paula Rego está na minha galeria dos grandes génios da pintura, está lá entre o Turner, Picasso e tantos outros, poder ver um quadro seu é sempre um momento alto, nunca ficamos indiferentes. No Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, podemos ver, até 22 de setembro, 80 obras suas e da artista plástica brasileira Adriana Varejão, que maravilha de exposição, que luxo podermos ver duas artistas de gerações e geografias tão diferentes a dialogar tão bem, sobre a opressão, a violência, o aborto, até algum erotismo no esventrar dos corpos, e a força imagética e profundamente criativa de Varejão aguenta muitíssimo bem este ombro a ombro com Paula Rego, formidável. Se em Paula Rego o gesto da espada fica suspenso, Adriana, pelo contrário, faz o golpe e morde até fazer sangue , esta frase da curadoria da exposição diz tudo. Para quem goste de pintura e consiga vir a Lisboa, absolutamente imperdível.  

Da atualidade política – as legislativas, a ética e o karma do cromossoma latino

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  As eleições legislativas do próximo domingo só vão acontecer por causa dos problemas éticos de Luís Montenegro, esse escrutínio é a única razão pela qual vamos agora a votos. E todos os vaticínios apontam que o quadro político não se vai alterar, com mais ou menos reforço todos parecem apostar na vitória da AD, e confirmando-se esse muito provável desfecho é porque Montenegro teve absoluta razão quando afirmou que ‘ não fez nem mais nem menos do que qualquer português ’. Há verdades que nos custam a aceitar, mas a maioria dos portugueses, desde logo os que votarem nesta AD, acham que a ética não foi ferida nem a credibilidade hipotecada... porque se fosse com eles teriam feito exatamente o mesmo, este cromossoma latino dado à pequena trapaceirice, desde furar as filas de trânsito até fugir aos impostos ou meter uma cunha a alguém, parece ser um karma do qual não nos conseguimos livrar. Mas o que é a ética afinal? Se isso não paga as contas de ninguém serve para quê mesmo? E assim, nu...

Das séries que eu vejo - Severance

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  Não costumo ser fã de séries, filmes ou livros sobre distopias ou ficção científica mais psicológica, mas decidi-me a ver Severance quando saiu a segunda temporada (três anos depois da primeira) e o coro de críticas foi unânime e super entusiasta, a melhor série dos últimos anos, a mais inteligente, a mais complexa, a mais tudo e tudo, pelo menos até à Netflix ter lançado Adolescense .  Vi as duas temporadas já existentes de empreitada, não verei a terceira. Já admiti que o problema sou eu, consigo perceber aqueles que lhe tecem os maiores elogios, é bastante criativa, não me recordo de ver nada parecido, os planos da realização são prodigiosos, toda a estética é muito apelativa, o Adam Scott e companhia são todos ótimos, a temática promete, a manipulação das grandes empresas capitalistas, o fanatismo religioso, o trauma, tudo parece ser muito profundo e dado a grandes reflexões, mas quase nada resulta, para mim foi (quase) tudo um grande aborrecimento (apesar de pérolas deliciosas,...

Da atualidade política – os votómetros, as eleições e eu

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  Acho piada ao ‘ Votómetro’ do site do jornal Observador, é naturalmente um exercício limitado, mas saibamos nós interpretar que aqueles resultados não são nenhuma sentença do nosso posicionamento político, e dali podemos retirar conversas muito interessantes e divertidas com amigos e familiares, nomeadamente quando somos apanhados de surpresa com um vaticínio inesperado, algo do tipo: O quê? A mim deu-me o PAN, nem pensar, eu não sou PAN!!! Na maioria das vezes, quase sempre, temos consciência de que a resposta que vamos dar vai direcionar as conclusões num ou noutro sentido, essa consciência mais ativa pode desvirtuar o propósito do jogo porque pode condicionar a nossa resposta, mas sem dúvida de que nos pode dar algumas dicas interessantes de reflexão, sou fã. Dentro da mesma lógica, respondi ao ‘ Espelho Meu ’ disponível no site do jornal Expresso, no fim daquela bateria de perguntas ser-nos-á dito qual o partido político, e respetivo líder, com quem mais nos identificamos. E a...

Das minhas pazes com Saramago

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  “ Olharei a tua sombra se não quiseres que te olhe a ti, disse-lhe, e ele respondeu, Quero estar onde minha sombra estiver, se lá é que estiverem os teus olhos ”, citação do livro ‘O Evangelho segundo Jesus Cristo’ de José Saramago, livro banido por Sousa Lara e Cavaco por ofender a moral cristã, perdoai-os Senhor.   Até hoje li apenas três livros de Saramago, ou melhor, apenas dois, Todos Os Nomes, de que gostei moderadamente, e Ensaio Sobre a Cegueira, que amei compulsivamente, do Memorial do Convento, apesar de várias insistências, nunca consegui passar das primeiras páginas. Sempre tive uma relação algo ambígua com José Saramago, reconhecendo-lhe o génio, e até me deixando contagiar por ele, sempre nutri alguma embirração pela persona , o preconceito do artista comunista que apregoa uma coisa mas que procura para si os luxos paradisíacos numa ilha estrangeira, alguém quase ingrata que deixara para trás o seu país. Perante artistas estrangeiros é-me mais fácil distanciar a obra da...

Dos filmes de que gostamos - Marcello Mio, de Christophe Honoré

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  Muitos não saberão quem é Chiara Mastroianni, tão pouco que é filha de Marcello Mastroianni e de Catherine Deneuve, talvez para estes Marcello Mio seja um filme sem interesse nenhum, e está tudo certo, não podemos ter todos os mesmos interesses, mas para quem gosta de cinema e das coisas de cinema, Marcello Mio é um puro deleite. O francês Christophe Honoré, realizador de filmes de que tanto gosto, como ‘Em Paris’ ou ‘Agradar, amar e correr depressa’, conseguiu fazer esta comédia ligeira de que tão subtil e despretensiosa parece simplória, mas em que para além de refletir sobre questões da nossa própria identidade, quem é que nós somos verdadeiramente, ainda é uma divertida sátira sobre o mundo dos atores. Em Marcello Mio quase todos os atores fazem de si próprios, para além de Chiara e Deneuve, mãe e filha, temos ainda gente como Melvil Poupaud, Fabrice Luchini ou a realizadora Nicole Garcia, e é precisamente de Nicole Garcia uma das frases mais impactantes do filme, representa um p...

Do turismo que fazemos e recebemos - Lisboa e Barcelona

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  Aqui há uns dias, no feriado da sexta-feira santa, decidi ir passear até à baixa de Lisboa, a cidade onde resido, a cidade que já dificilmente reconheço como a nossa cidade. A tão desejada multiculturilidade há muito que foi substituída por hordas de turistas que se acotovelam apressadamente e roubaram a essência de Lisboa, que prejudicam as suas gentes, é essa a palavra certa, prejudicar, fazer mal. Tudo aquilo que começou por trazer as pessoas de fora, os bairros, as lojas, as pessoas, toda uma vivência e atmosfera, aos poucos vai desaparecendo. São as filas intermináveis, não consegues dar dois passos sem teres de deixar alguém passar, são os preços estratosféricos, são as lojas de souvenirs que fecharam todo o nosso comércio de rua, são os hotéis a abrir de porta em porta e os alojamentos locais a expulsarem quem cá vive da cidade para fora, a tão falada gentrificação, é o lixo, o lixo que empesta cada rua por onde passam os turistas, é o cheiro insuportável a urina, se bem que n...