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A mostrar mensagens de junho, 2024

Da atualidade internacional - Biden, New York Times e as presidenciais norte-americanas

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  É assustador pensar que no próximo dia 5 de novembro a (ainda) maior potência mundial e garante dos valores do dito mundo ocidental, EUA, venha a cair de novo nas mãos do lunático, perigoso e imprevisível Donald Trump, nem me atrevo a cenarizar as consequências do que começa a parecer inevitável, mas os democratas andam mesmo a brincar com o fogo. Os debates televisivos norte-americanos não têm tanta tradição como aqueles que conhecemos em Portugal e na Europa, há muito poucos eleitores que reconhecem mudar a sua orientação de voto em função do que ouviram, trocando por miúdos, os debates não interessam assim muito, mas a contenda televisiva na passada quinta-feira, na CNN, entre Trump e Biden, parece (digo parece porque não segui o debate nem vi qualquer excerto) que foi uma hecatombe para o atual Presidente, não acabou algumas frases, noutras comeu palavras, ou então reduziu-se a silêncios embaraçosos. Não duvido que Joe Biden continue na posse das suas faculdades mentais e seja ca...

Da atualidade política - António Costa e a presidência do Conselho Europeu

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  Quem é o belga Charles Michel? É o senhor do sofagate , aquele que numa visita à Turquia deixou Ursula Von der Leyen especada de pé e refastelou-se num sofá ao lado de Erdogan, não foi por falta de cavalheirismo, disse, mas por questões protocolares e de se querer dar ao respeito, a presidência do Conselho estava acima da presidência da Comissão. Charles Michel não é assim tão conhecido por, ainda, ser o presidente do Conselho Europeu, um cargo não executivo que basicamente preside às reuniões dos Chefes de Estado, procura estabelecer consensos e representar a EU, mas não se enganem, não tendo qualquer poder executivo ou capacidade de negociar e aprovar leis, a presidência do Conselho Europeu é ainda assim um dos maiores cargos políticos a nível mundial, mesmo numa Europa cada vez mais fragilizada entre a América e o bloco asiático, é sobretudo um fazedor de pontes, precisamente a característica que ninguém parece ser capaz de negar a António Costa, ser um fazedor de pontes. Naturalm...

Das séries de que gosto - Eric

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  Tenho um fascínio absoluto pela iconografia de Nova Iorque dos anos 70 e 80, suja, decadente e fumegante, só por isso ERIC já é uma delícia, mas se ERIC começa com um drama familiar e um mistério, vai depois evoluindo para muitas outras coisas, tornando-se cada vez mais escura e densa à medida que vai tocando nas relações familiares, na doença mental, nas dependências, no crime, pobreza, teias de poder, política, corrupção, racismo, homofobia, todo um imenso caldeirão de podridão que nos vai entranhando na pele sem apelo nem agravo, juntando-se tudo num final que nos convoca para a esperança. Não há como não falar dos atores, se a Gaby Hoffmann é um portento de força, vulnerabilidade e desespero, se o português José Pimentão encarna o bem de forma muito convincente, entre todos os outros que são fabulosos não há como não engrandecer Benedict Cumberbatch, que prodígio de interpretação, aplausos para ele. ERIC, uma das melhores minisséries do ano. Na Netflix.  

Dos meus livros - Baumgartner, de Paul Auster

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  Nunca antes tinha lido Paul Auster, uma escolha sempre adiada agora precipitada com a sua morte recente, e de forma algo inusitada, ao invés de começar com os seus clássicos mais antigos e acompanhar a sua evolução, estreei-me com a sua mais recente obra, ‘Baumgartner’, e quase que aposto que este seu último livro pouco terá a ver com o Paul Auster por todos conhecido, o que, hélas , me vai obrigar a voltar a si mais vezes. Em ‘Baumgartner’ vemos uma escrita pouco arrumada, quase caótica, recordando histórias desconexas entre si e que não pretendem chegar propriamente a lado nenhum, apenas dar voz a uma memória que saltita entre tantas memórias do passado, numa escrita escorreita, que sabe construir no leitor personagens riquíssimas, sem as descrever consegue em meia dúzia de linhas que nos pareçam já familiares, e no meio das maiores banalidades leva-nos de forma descomplicada a questões mais metafísicas ou filosóficas, qual o meu papel no mundo, qual o meu contributo para a socieda...

Das séries que eu vejo - Bridgerton

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  A guilty pleasure das séries, fútil, tonta, algo infantilóide e a forçar algum erotismo sem necessidade, mas puro entretenimento do melhor que há, acabando por ser, de forma leve, divertida e sem um ativismo me too militante, das séries mais feministas de que me recordo, reivindicando para a mulher a possibilidade de ser inteligente, empoderada e dona de fazer o que quiser com o seu corpo. Na Netflix.  

Dos lugares especiais - Nápoles

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  Antes mesmo de aterrar no aeroporto estava já convencido que ia adorar a cidade, tal a firme sensação de que já a conhecia sem lá nunca antes ter posto os pés, mas nos últimos anos fui sendo conduzido pelos livros da Elena Ferrante, pelos filmes do Paolo Sorrentino ou por séries como 'Gomorra' ou ‘A vida mentirosa dos adultos’, por isso não foi para mim uma surpresa perceber que Nápoles é uma cidade mal-amada e tem muitas razões para o ser, é degradada, suja, está pejada de lixo por (quase) toda a parte, as ruas cheiram a xixi (Lisboa também, diga-se), vê-se cocó e vomitado humano ao dobrar duma qualquer esquina, baratas em bardo a correr à nossa frente, as pessoas são brutas, mal-encaradas, mal vestidas, deitadas pelos cantos, escarram para o chão, não param nas passadeiras ( isso é o quê mesmo? ) e não se entende uma palavra do que dizem, o trânsito é caótico e toda a gente buzina por tudo e por nada, as motas pululam por todo o lado com tangentes tão apertadas que muitas v...

Está mal - os falhanços do Estado

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  Há poucos dias em São Mamede de Infesta um homem de 42 anos assassinou a sua ex-namorada, atropelando-a mortalmente três vezes à porta do seu trabalho, assegurando que o pneu da sua viatura esmagava o crânio da vítima – os vizinhos e transeuntes perseguiram-no e conseguiram que a PSP o prendesse. O bandido era reincidente porque já em 2009 tinha assassinado outra mulher, dessa feita com 23 facadas e em Castelo Branco – note-se a forma particularmente hedionda dos crimes -, tendo sido então condenado a 16 anos de prisão, libertado ao fim de 10 anos em liberdade condicional. Uns anos mais tarde, outra jovem, em Bragança, apresentou queixa do assassino, tendo tudo ficado em águas de bacalhau porque na altura do COVID parece que o país não funcionava, sorte imensa terá tido essa senhora, saber-se-á hoje. Indignem-se minha gente, porque é para indignar, a mulher agora assassinada já tinha apresentado queixa à polícia 7 vezes – 7!!! -, a última das quais cerca de 2 semanas antes do fatídic...

Dos concertos de que gosto - Sílvia Pérez Cruz

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  Sílvia Pérez Cruz é absolutamente genial, é verdadeiramente uma das maiores, e mesmo com o som sofrível do Teatro Tivoli, por momentos feriu mesmo o ouvido, ofereceu-nos um concerto absolutamente memorável, para além de cantar que eu sei lá, para além daquela voz que nos aperta com a tristeza vulnerável numa só nota ou nos contagia com a alegria festiva daquele vozeirão, chiquita sin festivals   - que é uma fora-de-série a cantar já o sabíamos, já o sabia -, mas aquele sorriso gigante logo no início marcou todo o concerto, dúvidas houvessem e estávamos logo ali rendidos, mesmo sem abrir a boca, que ser de luz, e canção a canção foi-nos sempre envolvendo com a sua partilha e generosidade, desde coisas mais íntimas como a sua costela em Regengos de Monsaraz ou os seus poetas, como à forma que nos convoca para a necessidade de sabermos dizer ayúdame , ou que temos de cuidar da cultura indo ver ao vivo as coisas de que gostamos, saindo de casa e alimentando a cultura, ou ainda como quand...

Dos meus livros - Olhar para trás, de Juan Gabriel Vásquez

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  OLHAR PARA TRÁS é um romance biográfico da família Cabrera, fantástica história sobre as feridas que o fanatismo político exacerbado pode infligir, um retrato profundamente intimista mas que percorre metade do século XX, que nos faz mergulhar na guerra civil espanhola, na revolução cultural de Mao Tsé-Tung e nas guerrilhas colombianas, até damos um salto nos dias de hoje à nossa Lisboa e à pastelaria Califa em Benfica, se isto não é grande literatura então o que será? Juan Gabriel Vásquez é sem dúvida um dos melhores romancistas da contemporaneidade.  

Das idas à Feira do Livro

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    Ir à Feira do Livro é quase uma obrigação social, penso até que quem ousa não ir receia dizê-lo em voz alta com medo de ser proscrito, seja à de Lisboa ou a qualquer uma das que se vão repetindo país fora, ahhh, mas é um logro ir à Feira do Livro, encontramos melhores promoções nas livrarias, ah acabamos sempre por gastar muito dinheiro, ah são sempre multidões à pinha, ah nas tardes de Sol é um calor que não se aguenta, ah mas são favas, tudo isso é verdade mas continua a ser muito bom ir à Feira do Livro, pelo menos à de Lisboa que é aquela que eu conheço, não só porque de facto encontramos algumas pechinchas, mesmo quem como eu não tem arte nem paciência para as procurar há sempre os livros do dia, mas porque a Feira é sempre uma festa, com escritores consagrados a autografar livros, com pessoas conhecidas que se atiram para cima de nós, com a religiosa barraquinha das farturas à nossa espera para levarmos meia-dúzia carregadinhas de açucar e canela para casa, viva a Feira do Li...

Dos filmes que adoramos - La Chimera, de Alice Rohrwacher

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  No IndieLisboa tive a felicidade de poder ouvir a italiana Alice Rohrwacher a falar-nos do seu LA CHIMERA, de a ouvir explicar-nos que os tombaroli eram as trupes de homens que nos anos 80 pilhavam sepulturas milenares para roubarem artefactos etruscos e os venderem a museus e colecionadores endinheirados, e LA CHIMERA é sobre esses tombaroli, um filme que segundo Alice é parte comédia, parte drama, parte aventura, que é parte profano e parte sagrado, parte divertido e parte chato, parte poético e parte cru - tão cru que alguns tombaroli foram-no de verdade e a quem Alice foi buscar às cadeias, dito pela própria Alice -, um filme Felliniano que não é catalogável por ser tão livre e mágico, um filme que capta uma energia selvagem e alegre a que facilmente associamos aqueles italianos da Toscana dos anos 80, tão bem interpretados por um elenco notável, onde se destaca um dos meus atores fetish , Josh O’Connor, a divertidíssima e diva Isabella Rossellini, a brasileira Carol Duarte e...