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A mostrar mensagens de maio, 2024

Dos filmes que amamos – Disponível para Amar, de Wong Kar-Wai

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    Nesta obra-prima do melodrama romântico, a virtude e a moral opõem-se à consumação do amor, anulando o toque, o desejo, a proximidade numa sucessão de desencontros, numa porta que nunca se abriu, num amor platónico de uma contenção desmedida, num amor nunca vivido, ou talvez sim, porque nisto de amores nunca se sabe, quizás quizás quizás , como canta tão bem Nat King Cole, e bem sabemos que o protagonista tem um segredo bem guardado, segredo esse que na lindíssima cena final enterra para sempre em Angkor Wat, templo budista no Camboja. Toda a estética, muito filme noir , é deslumbrante e transporta-nos para o mundo perdido de Hong Kong nos anos 60, os elegantes qipao, as mesas de comida e os jogos de mahjong, os corredores apertados, os prédios velhos e janelas com grades, a chuva, as cores saturadas, mas se há algo que perdura no filme é a sua banda sonora, sobretudo o trecho ‘ Yumeji’s Theme’ , tornando cada cena tão depurada e tão intensa que, sobretudo quando recorre à câmara l...

Das séries que eu vejo - The Sympathizer

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  Contra a maré dos elogios que tem arrecadado, para mim foi das piores séries que vi nos últimos tempos, uma amálgama criativa onde se quis enfiar todos os géneros e mais alguns, comédia, espionagem, guerra, crónica social, tudo e mais umas botas, com o Robert Downey Jr. a fazer a delícia dos seus fãs em múltiplas personagens cómico-apatetadas, que tédio, que enorme bocejo. Na Max.  

Das coisas de cinema - Greta Gerwig e Zaho de Sagazan em Cannes 2024

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Numa cena icónica do maravilhoso filme Frances Ha , vemos Greta Gerwig a correr ao som de Modern Love , de David Bowie, cena essa que inspirou este inspiradíssimo momento protagonizado por Zaho de Sagazan (descubram-na, a sério), ao interpretar essa mesma canção na abertura do Festival de Cannes 2024, homenageando assim a presidente do júri, a própria Greta Gerwig. Lindo!  

Dos nossos artistas - o realizador Miguel Gomes

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  Miguel Gomes acabou de vencer a Palma d'Ouro do Festival de Cannes para melhor realização, com o seu novo filme "Grand Tour". Bravo!!! Hip hip Hurrah!  

Da atualidade - as sanções aos trabalhadores do Continente

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  O Supremo Tribunal de Justiça anulou agora uma condenação a um antigo trabalhador dos supermercados Continente, que tentou sair da Instituição sem pagar um saco plástico que custava dois cêntimos, tendo lhe sido retirado, entre outras sanções, metade do seu salário de 750€, ao que veio por estes dias o Continente reafirmar que, cito, os direitos e deveres dos seus trabalhadores são claros e transparentes . Confesso que me intriga imaginar a situação em que o velho senhor (já reformado, entretanto) foi apanhado, será que foi o colega do lado que o bufou ou estava algum diligente funcionário a observar as câmaras de filmar concentrado neste senhor, mas esta minha curiosidade não interessa nada, é apenas um fait-divers . Também é dito que o funcionário já era reincidente nalgumas patifariazinhas, já tinha tentado roubar uma extensão elétrica uns anos antes, claramente era um funcionário indesejado, mas a desproporcionalidade entre o prejuízo para a Instituição e a sanção imposta é choc...

Das lendas vivas - Cate Blanchett e a Palestina

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  Quando há uns dias vi Cate Blanchett a desfilar em Cannes com um esplendoroso vestido dourado pensei em escrever aqui um post a exaltar a rainha do cinema, que é também a rainha das passerelles, além de uma prodigiosa atriz ( pode haver tão boa, não há seguramente melhor ), Blanchett é igualmente linda de morrer e dona de um bom gosto insuperável, caramba, aos nossos olhos a mulher é perfeita. Mas eis que a vemos, numa quebra grave do rígido protocolo de Cannes, com um vestido da casa Jean Paul Gautier com as cores da Palestina, a também embaixadora da ONU para os refugiados a impor um statement sobre as atrocidades de Netanyahu a que a generalidade do mundo teima em fazer vista grossa, muito bem. Brava!  

Da atualidade - Palestina livre

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  É preciso coragem para estar do lado certo da história, Espanha, Irlanda e Noruega anunciaram que vão reconhecer a Palestina como um Estado de direito independente. Bravo!  

Dos filmes que adoramos - O Sabor da Vida, de Ahn Hung Tran

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  É um filme para os sentidos, é um filme que desperta em permanência o nosso olfato, paladar e visão, de tal forma que nem precisa de muitos diálogos, e os que existem são lindíssimos, é amor, amizade e poesia numa cozinha, é cuidar e amar à volta de tachos de cobre ou de uma horta na Borgonha francesa do século XIX, é um filme apaixonante este que foi o candidato francês ao Óscar de melhor filme internacional (e não o aclamado e extraordinário Anatomia de um Golpe ). Juliette Binoche e Benoit Magimel, outrora casados na vida real, são magia pura.  

Da atualidade política - os sem-abrigo e a autarquia de Lisboa

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  Viver na grande cidade embrutece-nos, aos poucos vamos interiorizando uma enorme apatia para com as pessoas que nos rodeiam, algo que felizmente nas terras pequenas ainda não acontece, ali o próximo ainda é um ser humano que nos convoca alguma humanidade. A forma como percorremos as ruas de Lisboa e nem um olhar desviamos para os muito sem-abrigo com quem nos cruzamos é algo absolutamente perturbante, mas deixando esta matéria à consciência de cada um - descer, por exemplo, a avenida Almirante Reis e perdermo-nos na igreja dos Anjos é, e senão é devia ser, traumático - é importante dizer que este flagelo deve ser um imperativo nacional. Dizem as notícias que se estima que atualmente haja em Lisboa cerca de 3.000 pessoas sem-abrigo, 300 das quais a viver mesmo na rua, número que eu diria estar subavaliado, a minha impressão é que o número de pessoas a dormir nas ruas é superior. É por isso que eu aplaudo a iniciativa de Carlos Moedas de tentar interpelar o Governo, a Presidência da R...

Dos grandes campeões - Jürgen Klopp e os adeptos do Liverpool

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  O alemão, Jürgen Klopp, despediu-se ontem de Anfield Road após 9 anos enquanto treinador do Liverpool, que comovente foi ver os adeptos a despedirem-se assim em festa, que inspirador as palavras emocionadas do seu principal adversário, Pep Guardiola, tão bom seria se pudéssemos importar estes exemplos para o futebol lusitano e despacharmos todos os treinadores calceteiros, presidentes manhosos ou claques criminosas.  

Não, não pode

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Não, não pode. Não senhor presidente da Assembleia da República, não pode, não pode deputados dizerem insultos racistas na casa da democracia porque a liberdade de expressão não é um direto absoluto, nem o direito à vida o é, não pode crianças agredirem outras crianças imigrantes e as direções escolares fecharem os olhos, não pode imigrantes argelinos verem a porta da sua casa arrombada e levarem uma sova, não pode que 75% dos jovens LGBTQIA+ sejam vítimas de bullying na escola, não pode voltar-se ao medo, não pode dizer-se que Portugal não é um país racista, xenófobo e homofóbico, não, não pode.  

Habemus aeroporto - Camões em Alcochete

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  O Pedro Nuno Santos deve estar com uma azia de todo o tamanho, a construção do ‘seu’ aeroporto em Alcochete foi finalmente anunciada pelo primeiro-ministro, que, é facto, tinha a papinha toda feita para só assinar por baixo, mas não decide quem quer, decide quem pode, e Pedro Nuno Santos não podia, António Costa podia mas não quis, e Montenegro pode, quis, e, mal ou bem, decidiu, mérito seu. Quem paga a conta? Isso agora não interessa nada, quem vier a seguir que (a)pague a luz.  

Da politiquice - a ministra do Trabalho e a Santa Casa

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  Tenho acompanhado com alguma atenção a novela da exoneração da provedora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, li algumas coisas e ouvi várias entrevistas quer da agora exonerada Ana Jorge, quer do outrora desconvidado ex-provedor Edmundo Martinho, bem como algumas declarações da ministra do Trabalho e Segurança Social Maria do Rosário Ramalho, e reconhecendo que não estou na posse de dados suficientes para emitir juízos sabedores, arrisco dizer que o ex-provedor não me oferece credibilidade nenhuma - “há uns anos os NFTs ( non fungible tokens ) estavam na berra” e “se a Abreu disse que sim quem era eu para dizer que não”, diz o senhor para justificar um negócio manhoso - , e, pelo contrário, Ana Jorge parece-me credível nos seus argumentos - a senhora tem pelo na venta e faz muito bem. E a senhora ministra? Tenha ou não alguma razão, admito que possa ter alguma, não muita, é de uma deselegância no trato e no verbo que me cobre de vergonha alheia.... e ainda vem dizer que isto não...

Dos filmes que amamos - Challengers, de Luca Guadagnino

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  O italiano Luca Guadagnino realizou dois dos meus filmes favoritos de sempre, ‘ Io sono l’amore ’ e ‘ Call me by your name ’, entre outros títulos todos eles também muito bons. Zendaya, o novo ícone de Hollywood e a rainha das passadeiras vermelhas, não tem tido, ou não tem sabido escolher, grandes papéis no cinema, mas bastou-me vê-la em ‘ Malcolm & Marie ’ para ter a certeza que ia ser uma das estrelas maiores da sétima arte. Josh O’Connor é, para mim e a par de Paul Mescal, o mais entusiasmante ator da sua geração. O argumentista Justin Kuritzkes era-me um perfeito desconhecido, mas sendo ele a inspiração de uma das personagens do trio de ‘ Past Lives ’, realizado pela sua mulher Celine Song, só podia ser bom. Adoro ténis. Feito este introito, fica claro que a fasquia das minhas expetativas para este CHALLENGERS estava a um nível lá bem nas alturas. A sessão a que assisti estava razoavelmente cheia, uma sala heterogénea com pessoas de todas as idades, com muitas senhoras de id...

Dos filmes de que gosto - 20.000 espécies de abelhas, de Estibaliz Urresola Solaguren

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  Diz uma lenda basca que as abelhas são um animal sagrado a quem tem se de contar tudo o que se passa no seio da nossa família e que são o garante da diversidade na Natureza, numa colmeia cada abelha é necessária e tem o seu papel específico, e a partir desta metáfora, a também basca, Estibaliz Urresola Solaguren (que delícia soletrar um nome basco, é sempre um feito) realizou um delicadíssimo filme sobre um menino chamado Aitor que queria ser chamado por Lucía, sobre a infância trans, despoletando esta aceitação mental vários tumultos na família, mas num pequeno pueblo do País Basco há, felizmente, espaço para diferentes formas de se ser mulher, belíssimo filme este com uma sensibilidade à flor da pele. Todas as personagens são preciosas e brilhantemente representadas, destacando-se a mãe, quase sempre à beira de se desmoronar mas conseguindo sempre ser doce, e – como não? -  Sofía Otero, o menino Aitor que queria ser Lucía, que com 9 anos ganhou o prémio de melhor interpretação do ...

Das séries de que gosto - Baby Reindeer

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  Porque é que só se fala de Baby Reindeer , a nova série da Netflix? Inspirada em factos verídicos vividos pelo escocês Richard Gadd, protagonista, argumentista e realizador, Baby Reindeer é desde logo sobre um homem que é vítima de perseguição e abuso sexual, um homem que nunca se vitimiza e não tenta ser melhor daquilo que é, um homem que com tantos motivos para chorar ainda nos tenta fazer rir, mesmo que não consiga, mas Baby Reindeer é sobretudo sobre o poder absolutamente destrutivo de que a falta de autoestima tem sobre uma pessoa, sobre até qual o limite a que nos sujeitamos para ouvir um elogio. Baby Reindeer é das séries mais cruas de que tenho memória, alternando entre o drama e a comédia e com um conjunto de atores superlativos, faz-nos mergulhar no abismo em que este homem se afundou, em que literalmente se afundou porque aquilo terá mesmo acontecido mais ou menos assim, entre um sorriso ou outro dá-nos um nó bem apertado na garganta, faz-nos rebolar no sofá, e lá dos fun...