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A mostrar mensagens de julho, 2024

Tempo de férias

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O Burro vai de férias, não vai saber do mundo, não vai ver nem notícias, nem filmes, nem séries, é tempo do Burro deixar o tempo passar sem nada fazer, é tempo de sol e calor, de mergulhos e olhar para as estrelas, é tempo de músicas e leituras, de bailaricos e jantaradas, de mojitos e vinho branco bem fresquinho, de amigos e família, é tempo de paz, esse é o meu tempo agora, e antes de ir deixo-vos com Céline Dion a cantar Piaf nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, mon Dieu de la France, absolument extraordinaire – parabéns aos vencedores e boas férias para quem me acompanha.  

Dos meus livros - O Perfume das Flores à Noite, de Leïla Slimani

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  Não partilho da opinião daqueles que consideram ‘ O Perfume das Flores à Noite ’ o melhor livro da franco-marroquina Leïla Slimani, a densidade e o arrebatamento das suas personagens nos seus três romances anteriores – O Jardim do Ogre ; Canção Doce ; O País dos Outros – não pode ser igual num livro de ensaio, mas neste exercício introspetivo sobre a solidão exigida para a arte de escrever, Slimani envolve-nos numa teia de memórias e evoca várias preocupações que a assaltam, a infância e adolescência, o pai, sempre o pai, o exílio, a orfandade de quem deixou o seu país de origem e nunca se integrou naquele que a acolheu, o próprio perfume das flores à noite, não se tratando tanto de um ensaio pesado sobre literatura, mas sobretudo um pulsar dos afetos da autora. Lê-se de uma penada de tão fácil e imersiva que é esta escrita, mesmo que carregada de frases às quais apetece voltar várias vezes para as dissecarmos lentamente, como “a primeira regra quando se quer escrever um romance é d...

Da atualidade internacional - Kamala Harris

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  É difícil mas acredita Kamala, precisamos de um mundo um bocadinho menos assustador, dá-lhe com força e coragem.    

Da falta de civismo - os cartazes políticos das eleições

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  As eleições europeias foram a 9 de junho, há mês e meio, mais coisa menos coisa, e continuamos com o espaço público cheio de poluição visual, é Bogalho para ali, Temido para acolá, alguns deles até com os dentes já cariados à boa maneira portuguesa, mas há uma coisa que eu não percebo, já que entre os responsáveis dos partidos políticos não existe um nível mínimo de civismo e urbanidade, porque é que a Comissão Nacional de Eleições não os obriga a cumprir as regras e respeitar o cidadão? Porque é que os partidos não são severamente punidos quando não recolhem o lixo eleitoral que produzem, incluindo os que estão em outdoors publicitários? Porque é que não são devidamente multados ou porque é que não lhes são retidas as subvenções enquanto não aprendem a ser gente bem-educada?  

Dos filmes que adoramos - Memory, de Michel Franco

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  Duas pessoas com vidas desfeitas que se cruzam, uma que se quer esquecer do passado, a outra que se esquece do que aconteceu segundos antes, o trauma e a doença, é tramado, duas pessoas que não desistem e tentam lidar com a sua memória, a memória das vidas desencontradas que por vezes se cruzam e fazem nascer qualquer coisa, um amor para a vida inteira, ou só um encontro, ou só um sorriso, ou só uma memória. Quando o realizador Michel Franco perguntou a Jessica Chastain com quem queria contracenar, ela escolheu o sempre discreto Peter Sarsgaard, e os dois levam-nos - com um intimismo dilacerante e uma contenção insuperável, brilhantes - comovidos e esperançados a todo o lado, MEMORY é um filme lindo, na simplicidade das vidas de todos nós é um filme absolutamente extraordinário.  

Da (falta de) cultura na cidade de Lisboa - Adeus Politécnica

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  O Teatro da Politécnica foi nestes últimos 13 anos a casa emprestada dos Artistas Unidos, ali à entrada do jardim Botânico, na Rua que deu o nome ao Teatro, da Escola Politécnica, onde eu e tanta gente assistimos a dezenas de peças, sempre à pinha, quase sempre com o seu fundador Jorge Silva Melo por ali a verificar tudo, um sítio muito especial onde era oferecido à comunidade textos e encenações de excelência, aonde a cultura era acessível a módicos preços, diga-se. Mas acabou-se, por ora, acreditemos, o que era doce, os Artistas Unidos foram hoje despejados pela proprietária do espaço, morte há muito anunciada, a Universidade de Lisboa, que quer ali instalar um museu, provavelmente alguma extensão do vizinho Museu de História Natural, desconheço – é questionável do ponto de vista da fruição pública o que será mais importante para a cidade, se um teatro com o calibre dos Artistas Unidos, ou se um museu, mas ainda vivemos num país em que a propriedade é privada e respeitada, e como t...

Dos meus livros - O chão dos pardais, de Dulce Maria Cardoso

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  Dulce Maria Cardoso é uma escritora fenomenal, dona de um estilo muito característico, o de quem escreve com a maior das simplicidades sobre histórias banais de pessoas normais, que sem gorduras e poucas descrições nos oferece uma profunda densidade das suas personagens e nos prende da primeira à última página, e, como tal, Dulce Maria Cardoso só sabe escrever bem ou muitíssimo bem, e não tendo o fôlego de Eliete ou de O Retorno – absolutamente extraordinários -, O Chão dos Pardais, mesmo com um final atamancado e correndo o risco de rapidamente nos esquecermos do mesmo, ainda assim é um livro que nos cativa e que se lê num ápice.    

Da atualidade internacional - La marseillaise

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  Ainda no rescaldo das eleições legislativas, Vive la France! Vive la démocratie!    

A quem o país é grato - Joana Marques Vidal

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  Joana Marques Vidal, o país agradece-lhe.      

Do teatro de que gosto - Um elétrico chamado desejo, pela Primeiros Sintomas

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  Quando há muitos anos visitei o Rio de Janeiro fiquei deslumbrado com os muitos teatros de vão de escada, em caves ou rés-de-chão de prédios anónimos, com meia dúzia de filas de cadeiras e sem lustres ou veludos encarnados, também por isso achei o Rio uma cidade viva, cosmopolita e culta, e Lisboa também o é, uma cidade viva, cosmopolita e culta, com alguns teatros de vão de escada, que é o mesmo que dizer com muitas companhias a trabalhar fora do circuito mainstream e das lindíssimas salas de espetáculos, por isso enfiar-me durante mais de três horas, numa sala de um rés-do-chão, sem ar condicionado, de um prédio escondido na Graça, para ver a companhia Primeiros Sintomas levar à cena, no Centro de Artes de Lisboa, a obra-prima de Tennessee Williams ‘Um elétrico chamado desejo’, com a maravilhosa Sandra Faleiro a fazer de Blanche Dubois, é sem dúvida das coisas que mais prazer me dá. Bravo!  

Dos filmes que adoramos - Do Fundo do Coração, de Francis Ford Coppola

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  Sobre os encontros e desencontros, sobre as encruzilhadas da vida que nos desafiam e por vezes nos apartam, sobre os sonhos e sobre o amor, é sempre sobre o amor, DO FUNDO DO CORAÇÂO, filme de culto de Francis Ford Coppola, de 1983, que ditou a sua ruína financeira tal o fiasco que foi, foi agora restaurado e pode ser visto no grande écran, e se é inevitável que muito boa gente vai detestar o filme (vi várias caras de enfado sofrido no final), para mim é uma absoluta obra-prima da fantasia romântica e do delírio musical. Se é a faísca do casal de protagonistas que nos leva pela mão o filme todo, no seu jogo do agora atrai agora repele , o filme vive muito menos dos diálogos ( que história tem o filme , perguntarão alguns) e muito mais da energia dos protagonistas com as várias personagens com quem se vão cruzando, a energia masculina com Harry Dean Stanton, a sensualidade exótica e etérea da alemã Nastassja Kinski (que Deusa), e com o magnético galã Raul Julia, cujas cenas dançadas c...

Das pessoas que admiramos - Cristiano Ronaldo e a Seleção

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  Num artigo de opinião do insuspeito jornal The Guardian , um jornalista britânico diz aquilo que eu e muitos portugueses pensamos e o que muitos outros se recusam a admitir, e cito, “ Questionamo-nos se as hordas de talentosos jogadores do ataque de Portugal se importam em ser atores secundários no show de Ronaldo. E questionamo-nos sobre a sabedoria de levar uma equipa imensamente talentosa para o Mundial, ou para este Europeu, para trata-la essencialmente como uma tournée de despedida. Oportunidades de ganhar grandes troféus, oportunidades reais, surgem muito raramente e sacrificá-las diante do ego de uma estrela em declínio, não importa o quão grande ele já foi, parece indefensável ”. Não saberia dizer melhor. É óbvio, é indiscutível, é absolutamente unânime que todo o país sente um enorme respeito e admiração por tudo aquilo que Cristiano Ronaldo conquistou, o país gosta de Ronaldo com todas as suas birras e caprichos, o país gosta genuinamente da Dona Dolores e de tudo isso, pon...

Da seleção, do hino e da Portugalidade

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  Não sou daqueles patriotas que acha que Portugal é a melhor coisa do mundo nem ligo por aí além ao futebol, pelo menos ao doméstico, mas sou daqueles que sofre até mais não e grita de alegria ao ver o Diogo Costa defender três penáltis. Haverá uma parte dentro de mim que trocava de bom grado com aqueles luxemburgueses ou noruegueses invisíveis para os amantes do futebol, mas com um PIB e uma democracia de fazer inveja, mas enche-me o peito de orgulho ao ouvir o nosso hino nestes palcos e afirmarmos bem alto estamos aqui e queremos vencer , não sendo eu daqueles que vê Portugal apenas como futebol, fado e bacalhau, emociona-me sempre a alegria, o sofrimento e a união em volta da nossa seleção e da nossa portugalidade. Ao ouvir A Portuguesa ser cantada neste Europeu da Alemanha, não pude deixar de recordar uns tempos idos em que aqui o Burro Velho foi emigrante na Alemanha, na mesma Alemanha, daqueles emigrantes que por vezes fazia umas centenas de quilómetros para ir comprar bacalhau...