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A mostrar mensagens de março, 2026

Dos filmes de que gosto - O Estrangeiro

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A partir do romance homónimo de Albert Camus, o francês François Ozon realizou este admirável O Estrangeiro, que segue o jovem Mersault na Argélia colonial dos anos 40. Na primeira parte do filme impera o silêncio de um homem frio para quem tudo é indiferente, para quem nada nem ninguém tem significado, limitando-se a viver aquilo que a vida lhe dá sem se preocupar em agradar ou fingir coisas que não sente, sendo na verdade desprovido dessa capacidade de sentir. Na parte final, O Estrangeiro torna-se mais palavroso quando se inicia um julgamento, num tribunal que pode parecer estranho porque prefere condenar o carácter estranho de Mersault do que um homicídio (não é spoiler , sabemos logo no início do filme que houve um crime). O Estrangeiro é um filme filosófico sobre o absurdo da vida, mas é também um retrato sociológico do imperialismo europeu, onde mais grave do que matar um árabe é não seguir as regras das convenções sociais, sendo ainda, graças a uma lindíssima fotografia a...

Das séries que vejo - Heated Rivalry

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 Heated Rivalry é a série mais badalada do momento, campeã de audiências que não ganha propriamente prémios (ainda), mas rouba todas as atenções na red carpet dessas cerimónias. Se Heated Rivarly tem alguma coisa de bom é ajudar a desmistificar a heteronormatividade no desporto, nomeadamente no hóquei no gelo que é coisa de machos, mas durante cinco episódios assistimos apenas a cenas de sexo, muito erotizadas, entre dois homens com corpos perfeitos, o enredo resume-se a isto, cenas de sexo em quartos de hotéis diferentes, não há um diálogo, uma reflexão, um conflito, zero, o que é muito entediante, só temos uns laivos de argumento no último episódio na já célebre casa de campo. O megaêxito mediático de Heated Rivalry não se deve certamente à qualidade da série, pouco mais é do que sofrível.

Dos filmes de que gosto - Sorry, Baby

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  Sorry, Baby , escrito, realizado e interpretado por Eva Victor, foi a sensação da temporada de prémios que agora terminou, mesmo tendo falhado qualquer nomeação para os óscares, é por isso um dos muitos exemplos de que há todo um mundo de filmes fantásticos fora da grande festa de Hollywood. Há coisas que nos acontecem na vida que nunca deviam ter acontecido, essas situações deixam cicatrizes, mas não nos devem contaminar e definir quem somos a partir desse instante. Alguém que enfrenta o trauma inimaginável de uma violação, pode escolher não se resumir a esse incidente trágico, sente repulsa, medo, vergonha, questiona-se com muitas hesitações e ambivalências, mas pode encontrar a cura na amizade e no amor de e pelos outros, e Eva Victor conta-nos isto tudo no tom certo, sem ser dramático mas com muito respeito por quem tenha vivido algo semelhante, sempre com uma enorme sensibilidade, graça e humor, uma lição daquilo que o mundo tanto precisa, empatia - uma pérola este Sorry...

Dos filmes que vemos - Young Hearts: O Primeiro Amor

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  Young Hearts – O Primeiro Amor, do realizador belga Anthony Schatteman, saiu do Festival de Berlim com o selo de filme de autor de qualidade, o que é verdade, diga-se, mas tremelica face à (inevitável) comparação com Close, também dirigido por outro belga e sobre a mesma temática, a descoberta (homo)sexual na adolescência. Se em Close vemos o conflito e o sofrimento desse caminho de aceitação, neste Young Hearts temos um cenário mais idílico, num caminho que pode ser de amor e de empatia e menos de bullying e de violência, em que temos um avô que nos incentiva a acreditar que devemos sempre perseguir aquilo que o nosso coração dita. Young Hearts é um filme doce e bucólico, daqueles que no fim nos deixa mais empáticos.

Das séries de que gosto - Slow Horses

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 Slow Horses não tem nada de especial nem é a melhor série policial que já vimos, mas tem tudo o que gostamos numa série de espiões, tem intriga, suspense, traições, reviravoltas, humor e atores de primeiríssima água, liderados pelos gigantes Gary Oldman e Kristin Scott Thomas.

Do génio de Rosalía e da estupidez de Timothée Chalamet

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Tal como o seu último álbum, Lux, esta atuação operática de Rosalía nos Brit Awards é absolutamente genial, não me canso de ver e de ouvir, no fundo é também uma maneira de mandar o Thimothée Chalamet ir dar uma volta ao bilhar grande, ninguém quer saber de ballet e de ópera uma ova, ele deve estar a rezar a todos os santinhos para que ter dito tamanho disparate não lhe custe um óscar.

Dos filmes de que gosto - Pillion

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 Pillion ( o lugar do pendura, em português ) é um filme surpreendente, e não é um filme choque sobre o submundo dos motards queer BDSM , não é sobre o prazer que machos alfa dominantes têm em infligirem humilhação e serem caninamente servidos, quer dizer, também é sobre isso sim, mas Pillion é muitas outras coisas, é sobre não ser preconceituoso e não julgar, é sobre autodescobertas e amores iniciáticos, é sobre a necessidade de pertença, sobre a incapacidade de amar, sobre sofrimento e crescimento, Pillion é grande humor mas é melhor drama, é sensual mas é sobretudo afeto e emoção, Pillion, é um filme que se pode estranhar e causar desconforto, mas Pillion é um grande filme romântico.

Das séries que adoro - Industry (4.ª temporada)

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 A quarta temporada de Industry atingiu o máximo em tudo – sexo, amoralidade, maldade -, mas não desilude, já não é mais uma crónica juvenil de recém-graduados ambiciosos à procura de um lugar dourado, mas sim um drama impiedoso, sem anestesia, sobre um capitalismo selvagem, onde os adultos são aquilo que desejam ser, ricos a esbanjarem ostentação em hotéis e salas de reuniões, sem escrúpulos, sem ética, sem regras, sem olhar a quê. Industry leva-nos de mão dada pela aristocracia da alta-finança londrina, de forma até um pouco voyeurística, pelo mundo implacável dos plutocratas que misturam política, negócios e imprensa, sempre com um único objetivo, ganhar poder e dinheiro, neste mundo tão atual em que tudo é uma transação, verdadeiros predadores à conquista do seu território para quem tudo se resume a um jogo de soma zero (o ganho de uns é a perda de outros). Tudo se passa a alta velocidade, com muita adrenalina e um jargão tão financeiro que não é fácil ao espetador comum ac...

Do teatro que vejo - Brokeback Mountain, por Daniel Gorjão

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  Brokeback Mountain , encenação de Daniel Gorjão para o Teatro da Trindade a partir de um conto dos anos 90 de Annie Proulx, é a história de amores impossíveis vividos fora do tempo, quando o preço a pagar para viver o amor e o desejo é mais alto do que a vida, quando o medo e a solidão levam a dianteira, amores que não tiveram a sorte de serem vividos noutro momento ou noutro local. As comparações são tramadas, e a meu ver esta peça não tem a força do filme homónimo de Ang Lee de 2005 – a minha geração não esqueceu os desempenhos de Heath Ledger e de Jake Gyllenhall, ao som da banda sonora de Gustavo Santaolalla -, a encenação não surpreendeu, demorou um pouco a agarrar o espetador e até compreendo quem tivesse achado ser uma apresentação de uma qualquer escola de teatro, ainda assim gostei, o texto é muito bom e foi bem servido pela dupla de protagonistas, que eu desconhecia, Duarte Melo e Rui Pedro Silva. Em cena durante sete semanas em Lisboa, todas as sessões esgotadas, o...