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A mostrar mensagens de março, 2023

Cada tiro cada melro - Carlos Moedas

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  Esta trapalhada já tem alguns dias mas não resisto: não é tanto pela residência universitária em si, ao que parece trata-se de um investimento totalmente privado e é natural que haja oferta para os vários segmentos da procura, mas o que terá passado pela cabeça de Carlos Moedas, e de quem o aconselha, a ir inaugurar um espaço já aberto há vários meses em que um estudante paga, no mínimo, uma renda de 700€ mensais por um quarto? Nesta altura de tanta contestação social e em que o tema da habitação angustia tanto os portugueses, é óbvio que ia sair chamuscado, isto não é só desnorte, é pior do que isso, é mais um sinal de que a sede de propaganda e protagonismo é tão forte (não é único, veja-se ainda ontem o Governo a lançar a primeira pedra dum prédio habitacional em Almada) que lhe turva por completo a realidade - o que importa é aparecer nas televisões, pena é que fique sempre tão mal na fotografia.

Sobre coisas da ética - Ana Obregón

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  A polémica está instalada em Espanha, depois de ter perdido o seu único filho, vítima de cancro, a atriz espanhola Ana Obregón, de 68 anos, anunciou que não voltará a viver sozinha pois acabou de ser mãe duma menina, fruto duma barriga de aluguer. Não partilho a visão restrita da lei dos nossos vizinhos, onde a gestação por substituição é terminantemente ilegal, seja ela remunerada ou altruísta, por ser uma manifesta violência contra as mulheres, sobretudo para as mais indefesas em risco de pobreza. Aproximo-me mais dos termos da lei que vigora em Portugal, em que as barrigas de aluguer só são permitidas a casais hétero ou de duas mulheres, em que estas não têm útero viável (ou outras situações clínicas que impeçam a gravidez), não podendo existir em qualquer circunstância um pagamento ou doação, nem existir subordinação económica entre a gestante e os futuros pais e/ou mães. Nesta notícia, parece implícito que o óvulo que fecundou a mãe emprestada era da própria Ana Obregón, condiçã...

Tá tudo doido - pornografia renascentista

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  Ainda acreditamos que neste canto da Europa Ocidental somos todos evoluídos e que as bizarrias vindas dos EUA, sempre pródigos em nos dar o melhor e o pior, são apenas bizarrias que só são possíveis nos EUA. Num colégio de Miami, um grupo de pais de alunos dos quinto e sexto ano, insurgiram-se com a professora de história de arte por ter mostrado aos alunos a estátua de David, de Michelangelo, pornografia, disseram – pasme-se! E a professora foi mesmo forçada a demitir-se. Estes tempos andam mesmo baralhados, esperemos que aqueles célebres pais de Famalicão e seus seguidores andem distraídos e que esta moda não pegue deste lado do Atlântico.

Tá tudo doido - o cancelamento de Enid Blyton e outros que tais

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  Algumas cabeças pensantes e as bibliotecas do município de Denver, no Reino Unido – sim, no baluarte do nosso mundo ocidental -, acreditam que a escritora inglesa de livros infantis Enid Blyton, que todos conhecemos e lemos em ‘Os cinco’ e ‘Noddy’, é uma ameaça para as indefesas crianças que possam requisitar os seus livros, os meninos e meninas correm o perigo de se mutarem em adultos perturbados por lerem tais ignomínias, sim porque Blyton foi a rainha da linguagem abusiva e usou expressões como ‘gay’ e ‘ cala a bo ca’, que insanidade. Então vai daí e o que acharam que era bem feito? Não retirar definitivamente os livros porque isso podia ser mal interpretado, e trazer-lhes chatices, mas recolher os livros para uma parte pouco acessível da biblioteca, e se ainda assim alguma criança tresmalhada insistir em ler alguma aventura da Zé e dos amigos, então o bibliotecário vem ao seu encalço para lhe explicar o perigo em que incorre, em simultâneo lançaram novas edições em que reescrever...

Da atualidade política - Almirante Gouveia e Melo

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  Em boa hora o Governo o foi buscar para coordenador da logística das Vacinas na pandemia, não façam dele o salvador da pátria mas o mérito não lhe pode ser negado, mas o ego, a forma inflamada como deve gostar de ser ver ao espelho e a ambição do senhor Almirante são perturbantes, o raspanete à guarnição do Mondego dado às televisões afirmando que ele próprio, não a Marinha mas sua sumidade, não permite faltas de autoridade é bem revelador do que já há muito percebemos. Parece que as sondagens para as presidenciais são muitíssimo promissoras, mas eu cá continuo a acreditar que o bom senso vai persistir e que vamos continuar sem militares com esse protagonismo político.

Da atualidade internacional - Israel

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  Israel, país sempre nevrálgico para a paz no mundo, ou falta dela, está à beira de deixar de ser uma democracia e se converter numa ditadura. Benjamin Netanyahu, ultra direitista e com grande probabilidade de vir a ser condenado culpado em vários casos de corrupção, conseguiu que o seu Governo tivesse aprovado esta semana uma lei que retira aos tribunais o direito de o destituir do poder, reforçando a sua estratégia de ter o poder político a interferir no poder judicial. Pode ser que a forte contestação que está a surgir tenha força para o demover, das pessoas nas ruas, da procuradora geral da república, de algumas forças especiais ou até membros do Governo, mas para já Netanyahu não dá sinais de recuar e promete até novas medidas. Medo!

Dos espetáculos de que gosto - Na Colónia Penal

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  Gesamtkunstwerk é um palavrão em alemão que se aplica à ópera e que quer dizer, obra total, porque conjuga muitas artes numa só arte, música, canto, teatro, dança, literatura e artes plásticas - NA COLÓNIA PENAL é uma ópera contemporânea (cantada em inglês) de Philip Glass, o mestre do minimal repetitivo , com base num conto de Kafka e adaptação do libreto dum senhor chamado Wurlitzer, aqui com direção musical de Miguel Sousa Tavares, encenação de Miguelinho Loureiro e movimento do meu querido amigo Miguel Pereira. Há espetáculos em que nos deixamos arrebatar por tudo em simultâneo, há outros que gostamos mais dumas coisas do que outras, estabelecemos mais conexão com isto e menos com aquilo, e contendo a ópera tantas artes dentro de si mais facilmente isso pode acontecer, sobretudo nas contemporâneas, e quando tal acontece continua a ser bom na mesma se nos permitirmos apreciar e admirar aquilo que nos faz gostar mais, assim foi comigo e com este Na Colónia Penal. O texto é riquíss...

Da TV de que eu gosto - Primeira Pessoa

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  A jornalista Fátima Campos Ferreira nunca me suscitou nem grande empatia nem nenhuma espécie de embirração, pouquíssimas vezes terei visto o seu Prós e Contras , recordo-me de um mais polémico em que a Lídia Jorge quase despachava um par de galhetas à Cátia Guerreiro, nunca me interessou aquele conceito de querer dar voz a todos em que toda a gente tinha uma opinião para dar e não havia tempo para se debater calmamente assunto nenhum. Agora em Primeira Pesso a, Fátima Campos Ferreira sente-se confortável em entrevistar seja quem for, e no seu estilo muito enfático, quase teatral (num Prós e Contras não acharia piada, aqui acho que funciona bem), escolhe os seus entrevistados a dedo e entre cenários intimistas e improváveis para o espectador, sem pressa, oferece-nos conversas curtas e muito interessantes    

Do país que temos - Lei dos Metadados

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  Metadados são informações que permitem a identificação e localização de comunicações eletrónicas (nomeadamente telefonemas, chamadas de vídeo, sms e emails), sem acesso aos respetivos conteúdos, os metadados não revelam o teor dessas comunicações, não são escutas telefónicas, isso são contas doutro rosário. Aqui há uns meses veio o Tribunal Constitucional declarar inconstitucional uma Lei que dava acesso às autoridades judiciais (e apenas a estas, claro está), para efeitos de investigação criminal, aos metadados de todas as comunicações efetuadas nos seis meses anteriores (ou seja, todas e quaisquer comunicações de qualquer um de nós), entendeu o TC que a lei ‘ restringia de modo desproporcionado os direitos à reserva da intimidade da vida privada ’, um pouco em linha com a jurisprudência do Tribunal de Justiça Europeu, note-se. Este veto não impede o acesso aos dados das comunicações que venham a acontecer a partir do momento em que um juiz o autoriza, mas impede, e torna ilegal, to...

Das séries de que gosto - A vida mentirosa dos adultos

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  Só o facto de ser passada em Nápoles já é meio caminho andado para se ver, mas ‘ La vita bugiarda degli adulti’ , que é como quem diz, ‘ A vida mentirosa dos adultos’ , é mais uma série a partir da obra da genial Elena Ferrante, e por sinal é também muito boa, para quem tem preguiça de ler o livro a série não lhe fica muito atrás. As mentiras que os adultos inventam para iludir as crianças, e sobretudo a eles próprios, têm normalmente consequências, assim acontece nesta história que testemunha o fim duma adolescência dividida entre uma cidade abastada e outra pobre, distante e totalmente desconhecida, entre a classe operária que se desenrasca para sobreviver e uma burguesia outrora revolucionária. Aqui não há peripécias, piruetas nem nenhum suspense de nos prender a respiração, aqui vemos só personagens a viver e discutir a sua vida o melhor que sabem. Na Netflix.

Do dia mundial da poesia - Alexandre O'Neill

Um adeus português Nos teus olhos altamente perigosos vigora ainda o mais rigoroso amor a luz dos ombros pura e a sombra duma angústia já purificada Não tu não podias ficar presa comigo à roda em que apodreço apodrecemos a esta pata ensanguentada que vacila quase medita e avança mugindo pelo túnel de uma velha dor Não podias ficar nesta cadeira onde passo o dia burocrático o dia-a-dia da miséria que sobe aos olhos vem às mãos aos sorrisos ao amor mal soletrado à estupidez ao desespero sem boca ao medo perfilado à alegria sonâmbula à vírgula maníaca do modo funcionário de viver Não podias ficar nesta casa comigo em trânsito mortal até ao dia sórdido canino policial até ao dia que não vem da promessa puríssima da madrugada mas da miséria de uma noite gerada por um dia igual Não podia ficar presa comigo à pequena dor que cada um de nós traz docemente pela mão a esta pequena dor à portuguesa tão mansa quase vegetal Mas tu não mereces esta cidade não mereces esta roda de náusea em que giram...

Dos meus filmes - Great Yarmouth

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  E se os imigrantes do Hindustão que são miseravelmente explorados pelos nossos campos agrícolas fora derem lugar a portugueses a serem igualmente explorados em terras de Sua Majestade? Great Yarmouth é uma cidade costeira inglesa onde uma fábrica de perús prefere contratar mão-de-obra sazonal portuguesa porque pode trata-los como carne para canhão e eles continuam a trabalhar sem levantar garimpa - no meio de tanta humilhação doeu especialmente fundo quando a personagem de Romeu Runa ia na rua e um local lhe gritou insultuosamente ‘ pork and cheese ’, a alcunha com que os portugueses são agraciados. O filme atordoa-nos duma forma sufocante, sofrida, onde tudo é lúgubre, viscoso, feio, triste, fétido, onde há sangue, excrementos, tripas e pescoços cortados a salpicarem-nos a vista, onde a esperança há muito que morreu e só se tenta sobreviver, onde quem ainda consegue sonhar e deixar-se levar pelo coração de repente leva uma murraça e volta àquele lugar de inferno – se estiverem dispo...

Das pessoas que admiro - Natália Correia

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  A propósito do lançamento da sua biografia pela jornalista Filipa Martins, que lhe demorou quatro anos a investigar e escrever, recordo Natália Correia. Não conheço a obra da poetisa, li apenas algumas coisas soltas, um dia dedicar-lhe-ei certamente mais atenção, mas retenho a imagem duma mulher fascinante, progressista, ativista e feminista, destemida e corajosa, teatral e excessiva, manipuladora e narcísica (precisava que gostassem dela ao ponto de, antes de morrer, ter destruído os registos do seu arquivo pessoal que pudessem manchar a sua imagem),  bonne vivante e sarcástica, multifacetada e superiormente inteligente, daquelas pessoas longe de ser unânime mas que faz a sociedade avançar. Por alturas de 1982, quando a Assembleia da República discutia a despenalização do aborto e o deputado do CDS João Morgado disse em sessão plenária que ‘o ato sexual era para fazer filhos’, em menos de nada Natália escrevinhou este ‘ O coito do Morgado ’, mais conhecido por truca-truca, e declam...

Dos grandes campeões - Marco Odermatt

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  Não percebo nada de ski, nunca fiz férias de inverno e tirando os anos que vivi pela Alemanha poucas vezes vi neve na vida, mas desde sempre que adoro ver ski alpino, e mais, torço sempre pelos atletas suíços, país onde fiz apenas umas férias e pelo qual não tenho especial simpatia, mas quando toca a ver desporto há coisas que não se explicam, emoção na vez da razão. Marco Odermatt, carinhosamente Odi, 25 anos apenas, é o meu favorito desde os seus tempos de júnior e além de ser o grande vencedor da taça de mundo de 2023 (e bicampeão mundial), este fim de semana arrecadou o recorde absoluto de número de pontos alcançados numa só época (2.042) e igualou os records de número de vitórias na world cup num só ano (13) e número de pódios (22), bravo!    

Dos escritores de que gosto - Miguel Esteves Cardoso

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  ‘Tu és o amor, Maria João. Eu sou apenas a sorte de poder amar-te.”   ‘Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo’.   Hoje em dia Miguel Esteves Cardoso gosta de escrever sobre o amor, sobre a sua Maria João e sobre a puta da vida que é linda , gosta de escrever sobre coisas que gosta, gosta de gostar, da tasca onde comeu uns jaquinzinhos fritos ou dos passarinhos que assomaram à janela, mas já há muitos e muitos anos que escreve crónicas sobre o que lhe dá na real gana e lançou muito recentemente mais um livro com crónicas publicadas no semanário Independente – ‘Independente Demente’. Cresci nos anos 80, com pouco acesso à cultura, a possibilidade de termos um Miguel Esteves Cardoso que nos entrava casa dentro com o seu Caderno 3 do semanário Independente, e durante algum tempo com a mítica revista Kapa (espero ai...

Do que ouço e vejo por aí - Tony Carreira

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  Nunca simpatizei com o Tony Carreira, houve uma altura que os miúdos do Liceu Pedro Nunes quando o viam a passar na rua gritavam em surdina 'plágioooo' e admito que isso me divertia, por isso não serei a pessoa mais insuspeita, mas querer pronunciar para julgamento, como culpados pelo acidente que vitimou a filha, a cantora Cristina Branco (que não sinalizou o perigo na estrada com o triângulo de aviso, por estar na berma a tentar proteger, hélas , a filha de 11 anos) e o namorado Ivo Lucas (pela sua 'completa desatenção') não é um pai a fazer o luto pela morte de um filho, é so ruindade mesmo.  

Tá tudo doido - Transtejo/Soflusa

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  A Administração da Transtejo/Soflusa comprou nove navios sem baterias, que é mais ou menos como quem diz, sem motor, e depois fez um procedimento adicional de contratação por mais 15,5 milhões de euros, naquilo que o Tribunal de Contas vem dizer, de forma quase inédita, terem sito ‘ atos economicamente irracionais e ilegais ’. O que levará uma Administração a adquirir barcos sem terem condições para assegurar o transporte de passageiros? Que isto cheira a esturro cheira, e que o Ministério Público faça agora o seu trabalho porque ou muito me engano ou isto são sérios indícios de corrupção, talvez a demissão não seja suficiente.

Dos espetáculos de que gosto - Keersmaeker, Lopez & Ekman

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    Dança contemporânea com três coreógrafos diferentes pela CNB e com o quarteto de cordas de Matosinhos em palco: gostei de Grosse Fuge, reposição da belga Anne Teresa Keersmaeker, não gostei nada de  Avant qu’il n’y ait le silence do luso Fabian Lopez (gostava de ver dançado por outros bailarinos, achei estes muito sofríveis, os rapazes sem qualquer intensidade nem noção de sincronismo sofriam por antecipação só de pensar que iam ter de elevar as moças de tão tenrinhos que eram ) e adorei Cacti do sueco enfant terrible Alexander Ekman, nunca antes dançado por cá, as palmas que não bati nos primeiros entreguei-as todas no último, bravo!

Da atualidade política - Pedro Nuno Santos

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  Sempre gostei do estilo de Pedro Nuno Santos, preparado, combativo, despachado, às vezes bronco e conseguia passar a ideia que estava mais preocupado em fazer do que parecer. Na altura não comprei totalmente a ideia de que o anúncio do local do aeroporto tinha sido uma gaffe, uma precipitação, parecia um erro demasiado primário para alguém já tarimbado, admiti como plausível que aquele avanço seguido de puxão de orelhas era o resultado duma estratégia com o primeiro-ministro. E agora o caso Alexandra Reis? Sabia? Não sabia? Afinal soube por whatsapp mas não tinha dado importância? Claro que devia saber, claro que deu ok a que Alexandra Reis fosse destituída, claro que acompanhou a negociação do valor da indemnização, claro que achou tudo normal e até merecido, de tal forma que até quis recompensar Alexandra nomeando-a para a NAV como forma de agradecimento pelo seu trabalho na gestão da TAP, mas se até aqui o grau de gravidade ainda é incerto e discutível (vamos ver o que a comissão...

Das pessoas que admiramos - Papa Francisco

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  Celebra-se agora o 10.º aniversário do Papa Francisco, uma alegria e uma desilusão (quase) na mesma medida. O Papa Francisco é profundamente inspirador, para católicos e não católicos, convoca-nos a todos para um mundo melhor e renova-nos a crença que a nossa sociedade pode ser mais fraterna e generosa. Muito para além das suas encíclicas está a sua ação, tudo nele é bondade, amor ao próximo e tolerância, tudo nele é de incluir e abraçar e não de condenar e excluir, tão bom seria que o mundo estivesse mais em sintonia com ele. A escolha do nome foi logo um bom augúrio do que aí vinha, desde então este homem, simples, despojado, humano, tudo tem feito para renovar por dentro a sua Igreja, trazer-lhe uma linguagem de diversidade, de igualdade, de tolerância, de inclusão, seja quando foi a Lampedusa visitar refugiados, seja como procura proteger os migrantes em geral, abraçar as minorias ou vencer preconceitos há muito enraizados, é o homem que põe a igreja a discutir o celibato e a ord...

Das coisas bonitas - Óscares

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  Cate Blanchett, Paul Mescal, Nicole Kidman e Lenny Kravitz foram para casa de mãos vazias mas encheram a red carpet, no caso, a passadeira champanhe. Os melhores da noite, arrasaram.  

Das séries de que gosto - Cunk on Earth

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  Cunk on Earth, de Philomena Cunk, é uma pedrada no charco de tão bom e surpreendente, é uma paródia à bruta sobre a história e os dias de hoje, os dias das verdades absolutas só porque se viu na net, dos soundbytes e do irresistível ‘ foi aqui que ouviu em primeira mão ’, o que importa é dizer primeiro. Do melhor que há no humor, puro nonsense, os trocadilhos uns atrás dos outros, a atitude da Diane Morgan (não é novata mas só a conhecia de After Life ) e as reações dos experts, é tudo genial. Que venham mais temporadas.

Das coisas de que gosto - Óscares

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  Não é sobre os nossos filmes preferidos nem tão pouco sobre os melhores filmes do ano, é apenas uma festa fantástica que quer celebrar o mundo do cinema. É sobre o monólogo de abertura e saber se o apresentador este ano vai ter piada e fazer esquecer o Billy Crystal de há muitos atrás, é sobre os discursos emocionados que fazem galvanizar a audiência, é sobre as mensagens que as estrelas querem passar ao mundo (ouviremos certamente palavras de solidariedade dirigidas à Ucrânia) sem nunca esquecer que não é sobre política, é uma festa, é sobre o in memoriam e sobre as coreografias dos números musicais, é sobre a surpresa, o brilho e o glamour, sobre a passadeira vermelha e as mais bem vestidas da noite, é sempre sobre as estrelas que gostamos de ver e, no fim, sobre a emoção de sabermos se aqueles por quem torcemos ganham alguma coisa. Darei uns pulos de alegria se alguns dos meus favoritos ganhar qualquer coisinha (Fabelmans, TAR, A oeste nada de novo, Cate Blanchett, Paul Mescal, B...

Dos meus filmes - Ice Merchants

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  Breves minutos de animação de traço simples, meio tosco e indefinido, cores saturadas, sonoridade musical muito envolvente, que sem nenhuma elaboração nos leva muito além do simples quotidiano repetitivo de uns bonecos que vendem gelo, leva-nos ao amor filial, ao risco da sobrevivência, à vertigem do abismo e às alterações climáticas, são breves minutos de poesia sem palavras. Que festa seria se na madrugada de domingo recebesse o Óscar, mas a admiração e o orgulho de nós todos já ganhou.

Das pessoas que respeito - Ursula Von der Leyen

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Tenho gravado na memória a primeira parada militar de Ursula Von der Leyen enquanto ministra da defesa alemã, ali algures por 2013 – já não era uma novata na cena política mas estar ali a liderar as tropas, com o seu jeito afável e feminino, era sem dúvida um tremendo salto civilizacional que Angela Merkel, ao convidá-la, e a própria Ursula Von der Leyen ao aceitar o cargo, nos estavam a conceder a todos. Se Merkel é a minha referência política internacional (ainda?) no ativo – bem sei, como esquecer como nos apertou o cinto a todos, como esmifrou a Grécia ou como não soube avaliar a ameaça Putin -, quando impulsionou a sua delfim e protégé Ursula Von Der Leyen para a europa a fasquia das expetativas foi deixada elevada. Até ao momento não as terá superado e não está isenta de polémicas, a falta da transparência nas negociações com as farmacêuticas no pico do Covid (sem prejuízo do escrutínio e da ética, na altura queríamos um líder que cumprisse todos os protocolos ou que arregaçasse ...

Dos meus filmes - A Baleia

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  Uma personagem por quem temos simpatia mas que também nos irrita por ser tão otimista e ingénuo, que compreendemos por procurar a redenção para lidar com a culpa e consciência pesada mas que nos faz questionar até que ponto um pai reconhece e aceita a maldade de um filho ou procura resgatá-lo para ser uma melhor pessoa, o filme explora muito bem estes temas sem deixar de nos fazer sentir repulsa por aquele homem, um filme que incomoda, muito físico, num espaço apertado que nos sufoca e faz querer entrar naquela sala para o ajudarmos de qualquer maneira, mas logo a seguir nos enoja a cada nova fatia de pizza. Os desempenhos são todos notáveis, Brendan Frazer vai justamente ganhar (e tanto que eu gostei de Paul Mescal e Bill Nighy), Hong Chau não desmerecia se ganhasse e achei a mãe Samantha Morton genial. Bom filme.

Da atualidade política - Marta Temido

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  Marta Temido saiu de cena por cansaço, por ser vulnerável, por estar frágil, mas isso não a enfraqueceu, pelo contrário, tornou-a mais forte, mostrou que não é imune ao que a rodeia e que não está agarrada ao poder, qualidades importantes num político. Os defeitos que lhe apontam são quase unânimes, que tem mau feito e que se pode exaltar com facilidade, a própria o assume (mas será esse um defeito de lesa majestade para um dirigente político?), que titubeou e tomou muitas decisões erradas no vaivém do Covid (fecha numa semana, abre na seguinte, houve muitas de facto que nos deixavam perplexos) e que a sua ortodoxia ideológica a impediu de tomar decisões que urgiam por imperativo nacional (veio agora a saber-se que no recato trabalhou intensamente com os Privados para tentar encontrar as soluções possíveis) – afinal os putativos defeitos não parecem assim uns defeitos tão mauzinhos, sobretudo para quem esteve no lugar provavelmente mais difícil da política portuguesa desde o 25 de Ab...

Dos meus filmes - Para Leslie

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  Filme indie de baixo orçamento que não fora as nomeações aos Óscares ninguém ia ver, e que pena seria porque é um filmaço, leva-nos ao tormento e redenção de quem padece do alcoolismo, bastante comovente. O nome da Andrea Riseborough foi a grande surpresa na corrida aos Óscares, até uns dias antes não aparecia na lista das favoritas, mas graças a um fortíssimo e pouco habitual lobby de algumas estrelas de Hollywood (da própria Cate Blanchett, Kate Winslet, Jane Fonda, Susan Sarandon, Sally Field, Charlize Theron, Amy Adams, Gwyneth Paltrow, Demi Moore, Jennifer Anniston, muitos nomes de peso) conseguiu a nomeação – gostei imenso das performances da Michelle Williams e da Ana de Armas, mas não fosse eu incondicionalmente do team Blanchett e estaria a torcer pela underdog Riseborough, absolutamente inesquecível, ficamos siderados em todas as cenas a olhar para ela. Mas Riseborough não está sozinha, todos os secundário estão fortíssimos e lá no meio está a muito discreta e brilhante ...

Dos meus livros - Elizabeth Finch

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  “ Das coisas existentes, algumas são encargos nossos, outras não. As coisas que são encargos nossos por natureza são livres, desobstruídas, sem entraves, enquanto as que não são encargos nossos são débeis, escravas, obstruídas, de outrem. Só é possível ser livre e feliz reconhecendo esta diferença essencial entre aquilo que pode ser alterado e aquilo que não pode. Entre as coisas que não são encargos nossos estão os nossos corpos, as nossas posses, a nossa reputação ”, e o amor, que é como quem diz – vive o melhor que possas a cada momento e não te angusties com aquilo que não controlas, que não depende de ti, nem mesmo quem tu amas ou quem te ama a ti. Julian Barnes, britânico que andou por Oxford, não será o mais fácil dos escritores, nem o mais consensual, não será de todo um crowd pleaser , mas é sem dúvida um dos meus autores de eleição, não sejam dele dois dos meus livros preferidos, A única história e O sentido do fim . Mas se nestes livros a leitura, para mim, foi escorreita...

Dos meus filmes - Living

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  Quem no fim deste filme não se deixar comover e acreditar, nem que seja só durante 15 minutos, que temos de aproveitar cada segundo das nossas vidas e que vale sempre a pena tentar fazer a diferença, deixar uma marca boa, então que veja lá o que se passa com esse coração empedernido. Pode ser um filme despretensioso e a puxar ao sentimento e por isso não entrar no clube dos grandes filmes, who cares , mas toda aquela fleuma britânica dos anos 50, cinzentona, é filmada duma forma tão delicada e tão bonita que achei o filme uma pequena grande maravilha (além das interpretações e dos diálogos a banda sonora e a direção artística são também notáveis, aquela patine vintage sobre Londres dos anos 50 é lindíssima). O Bill Nighy, adoro-o desde os tempos do fantástico Love Actually , não vai ganhar o Óscar, estas interpretações super contidas não costumam dar prémios, e sou team Paul Mescal e com muita curiosidade em ver o favorito Brendan Frazer, mas se o Bill ganhasse eu ia dar uns saltos d...

De vistas lavadas - Zendaya

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Esta Zendaya tem carisma a rodos, bastou-me vê-la cinco minutos em Malcolm & Marie (não, não a conhecia da Disney) para perceber que é absolutamente magnética e será um dos nomes maiores de Hollywood, ainda por cima é a rainha das red carpets , sempre um arraso.  

Dos cruzeiros em Lisboa

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  Nunca compreendi o entusiasmo à volta da indústria dos cruzeiros em Lisboa, nem o investimento feito no novo terminal de passageiros de Santa Apolónia (por acaso a obra do Carrilho da Graça não me choca por aí além), que orgulho sermos um dos portos marítimos mais concorridos a nível europeu, que bom que todos querem vir, que prestígio. Não consigo ver as coisas assim, não me parece que o turismo que atrai seja o mais interessante para a cidade, o turista do Tuk Tuk, que permanece apenas meia dúzia de horas, que compra uns souvenirs magnéticos (de preferência umas sardinhas) para os frigoríficos lá de casa e no máximo deixa uns cobres nas esplanadas e restaurantes, não me parece que o bem que trazem compense o mal que deixam. Um desses males, além dos preços altos, das filas e confusões, é a poluição, coisa pouca a poluição, que maçada – a acreditar nuns estudos que li há tempos, um único navio estacionado polui tanto como um milhão de carros durante um dia inteiro, penso que antes d...

Da atualidade política - Pedro Passos Coelho

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Volta Pedro, estás (quase) perdoado. Para mim um estadista tem de ter dois tipos de qualidades, tem de ter mundo, de ser culto, gostar de ler, viajado, ter visão, ter rasgo, tem de gostar de viver bem, e assim ter maior propensão para procurar uma sociedade mais progressiva e pluralista, não reconheço estas qualidades em Pedro Passos Coelho, quando diz aos portugueses que passa férias na sua Manta Rota de sempre pode passar uma imagem de pessoa simpática, concordo, mas não a do estadista que vê sempre mais além, que procura sempre mais, pelo contrário, passa-me a mensagem do político que se contenta com pouco e acomoda com tudo, e como tal, se cortar no nível de vida dos portugueses está tudo bem, porque ele próprio também vive com pouco, daí às vezes escapar-lhe a boca à verdade e soltar umas afirmações assassinas como aquela do ‘ emigrem senhores professores ’, quando o nosso primeiro diz isto está tudo quilhado ( palavra bonita esta ). Por outro lado, tem de ser uma pessoa com corag...

Dos meus filmes - Os espíritos de Inisherin

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À partida não estava apostava muito neste filme, as personagens apatetadas habitualmente não me entusiasmam porque roçam o abonecado, mas este Os Espíritos de Inisherin, sobre a solidão e a inocência, é uma delícia harmoniosa entre a nostalgia e o humor, com muita ternura pelas pessoas e animais, e onde todas as personagens (incluindo os secundários, os donos do bar, o polícia, a vidente, a dona da mercearia, o burro, todos sem excepção) são muito castiças e genuínas, residindo sempre muita sabedoria nos tolos da aldeia, tudo isto numa Irlanda dos nossos sonhos e com uma lindíssima banda sonora de Carter Burwell. Com ou sem Óscares - vai falhar os principais, o Colin Farrell está bem mas por mim não chega lá, mas ficava contente se um dos supostos secundários vencesse, o Brendan Gleeson e mais ainda o Barry Keoghan ou a Kerry Condon – é um dos filmes mais bonitos e fofos do ano.    

Dos meus filmes - LORE

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Sempre me interessou muito perceber como os alemães viveram, e vivem, o fim da 2ª Guerra Mundial e o pós-nazismo, e este LORE é um filme fantástico sobre como os filhos de quem fez a guerra sobreviveram imediatamente a seguir à queda do Hitler e implosão do regime. Muito bom. Na RTP Play.

Da cara de pau - Federação Portuguesa de Futebol e Fernando Santos

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  Assumo que nunca gostei do senhor engenheiro Fernando Santos, da atitude defensiva e pequenina que sempre imprimiu na seleção (sou dos que acham que a seleção teve êxitos apesar do senhor engenheiro, mas na verdade pouco percebo de futebol e acho que nunca gostei de nenhum selecionador nacional, está visto que o problema deve ser meu, admito), da sua subserviência para com o nosso Cristiano (da qual se quis redimir ao mostrar-nos a todos no último campeonato que afinal quem mandava era ele) e não comungo das causas sociais ou fraturantes que, no seu pleno direito, foi defendendo ao longo dos anos, tão pouco me comoveu tê-lo visto a rezar à sua devota Nossa Senhora de Fátima. Dito isto, sim, embirro com o senhor engenheiro. Já me deixou um pouco mais incomodado saber que era arguido por fugir às suas obrigações fiscais, em 4,5 milhões de euros, e continuar impavidamente a ser o selecionador de todos nós, aquele que nos devia representar é alegadamente o primeiro a arranjar um esquem...