Dos filmes de que eu gosto - Anora, de Sean Baker

Não aderi de imediato ao filme, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, estava à espera de uma comédia romântica na onda do Pretty Woman da Julia Roberts e Richard Gere, mas Anora não é nada disso, esta história sobre uma acompanhante de luxo e as oligarquias russas começa logo ligada à corrente, alta voltagem, com muita nudez e sexo encenado, constante, repetido, a um ponto que me estava a parecer gratuito e aborrecido, mas depois de nos acomodarmos à cadeira vamos aderindo àquele ritmo frenético e ao registo de comédia hilariante, nem sempre de rir a bandeiras despregadas mas soltamos umas boas gargalhadas, a sala estava empolgada, e as peripécias a desenrolarem-se umas atrás das outras, divertidas, apenas isso, e seria isso suficiente para trazer tantas honras a este tão premiado Anora, parecia-me pouco, mesmo com atores superlativos naquele linguajar russo faltava alma ao filme, até que uma das personagens secundárias, Igor, começa a trazer uma doçura inesperada e desconcertante ao filme e no final agarra-nos com força, o sonho e a vulnerabilidade da jovem prostituta são muito tocantes.
No meio de tanto excesso, todas as personagens são credíveis, os arménios e os russos são imperdíveis, o jovem noivo Ivan perdido nos seus excessos e caprichos, a doçura seca e austera do capanga Yura Borisov (notável), mas não há como contornar a energia fulgurante da protagonista Mikey Madison, a nomeação aos Óscares não lhe escapa e o cinema acabou de ganhar uma nova estrela.
Está aberta a temporada dos prémios, e abriu em grande, belíssimo filme.
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