Dos meus livros - Conversa n'A Catedral, de Mario Vargas Llosa
Mario Vargas Llosa não facilita a vida ao leitor neste que foi um dos seus primeiros romances, e um dos mais consagrados - Conversa n'A Catedral -, no início somos confrontados com vários narradores, múltiplas histórias, muitas personagens, diferentes períodos temporais, às vezes misturados no mesmo parágrafo, na mesma frase, Llosa pede-nos paciência, vagar, disponibilidade, e aos poucos vai tecendo a trama através de uma conversa entre dois desiludidos num bar chamado A Catedral, em quatro horas de muitas cervejas e partilhas relatadas ficamos a saber muito daquele Peru de meados do século XX, um Peru sob ditadura, que (não) mistura aristocratas, índios, negros, militares, resistentes, prostitutas, jornalistas, num puzzle que vai montando um ambiente que respira guerrilha política, dramas familiares, tensões sociais, numa sociedade peruana muito estratificada pela cor da pele, pelo machismo, pela corrupção, onde as pessoas se desencantam e as famílias se vão arruinando, um mosaico de personagens desesperançadas, descritas de forma despudorada, com defeitos, com podres e crimes às costas.
Conversa n'A Catedral é um calhamaço de 600 e tal páginas que cruza todas estas dimensões, em que Llosa com um domínio total da escrita nos oferece não só um fresco histórico, mas também a alma destas personagens, uma obra-prima.

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