Dos filmes de que gosto - Entroncamento

 


Apetece-me dizer tantas coisas sobre a segunda longa-metragem de Pedro Cabeleira, excelente filme.

Entroncamento é a cidade das linhas ferroviárias entrecruzadas e a história encruzilhada de um conjunto de jovens delinquentes, que vivem do esquema e do pequeno crime, vidas duras num ambiente profundamente tóxico, machista, misógino e cheio de tensão racial, mas onde duas mulheres com pelo na venta tomam conta das rédeas e deixam os rapazes em sentido, trazendo uma ligeira nota de esperança ao filme, permitam-me especular mas talvez se a Cristina Ferreira visse mais filmes como este percebesse que não é não e que elas não se põem a jeito, ou talvez não.

Pedro Cabeleira conseguiu um filme com pulso, firme, com cenas de violência muito credíveis, sem nunca desumanizar aquelas personagens, aqueles jovens não são figuras do mal, são vítimas, quando cresces assim quão difícil não será escapar daquela redoma? Até porque tudo começa na educação e na escola, a cena em que Cleo Diara fala com uma professora primária incomoda até ao tutano, porque aquele racismo intrínseco da professora existe mesmo.

Pela negativa há que falar do som, alguns diálogos são difíceis de entender, mas, em compensação, a fotografia penumbrenta de Leonor Teles é notável, ao que se junta um trabalho de atores, profissionais e amadores, fortíssimo, destacando três deles, a protagonista e magnética Ana Vilaça, a futura megaestrela Cleo Diara, e o estreante ator cigano Henrique Barbosa a desempenhar um Gilinho cigano, que atorzão.

Não conheço o Entroncamento, conhecida pejorativamente como a cidade dos fenómenos, mas surpreendeu-me pela positiva como é que o Município resolveu apoiar a produção do filme, quando o retrato que lhe é pintado não é nada instragramável, muito bem, pensei eu, respeito pela independência e liberdade criativa. Entretanto, recordei-me que o Entroncamento é um dos três municípios do país presididos pelo Chega (certamente posterior à data da decisão camarária), curioso.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Das séries que adoro - Industry (4.ª temporada)

Do génio de Rosalía e da estupidez de Timothée Chalamet

Dos filmes que vemos - Young Hearts: O Primeiro Amor