Dos meus livros - A Caverna, de José Saramago

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A Caverna é um romance onírico sobre uma realidade distópica não muito distante, é impressionante como José Saramago há mais de 25 anos antecipou um mundo em que há sempre um vigilante a olhar para nós, em que cada vez mais a nossa individualidade é refém do consumo e do progresso, sim, quando não conseguimos resistir aos melhores smartphones estamos sempre, em certa medida, a escancarar uma parte da nossa intimidade a alguém que nos observa.


Saramago escreve sempre para além do literal, nesta alegoria construída a partir da nobre arte de trabalhar o barro, em cada frase há sempre um simbolismo, um regressar às nossas raízes, à liberdade de sermos quem somos, a valorizarmos os nossos tesouros muitas vezes negligenciados, o amor, a família, o trabalho digno, a bondade, o luxo de vivermos num tempo lento.


Admito que a minha leitura teria tido um fôlego diferente se o livro tivesse menos 30 ou 40 páginas, a páginas tantas senti-me um pouco estagnado e impaciente, mas A Caverna é um romance muito bonito, doce, simples, em que o supérfluo dá lugar à essência, mas mais do que uma certa candura e inocência que atravessa todo o livro, o que mais me seduziu foi o que sempre me seduz em Saramago, a sua prosa tão bonita, a facilidade com que escreve frases bonitas, a forma como com um vocabulário despojado constrói a sua própria linguagem com uma força poética muito rara.


 

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