Do teatro que adoro - Marco Martins, A Colónia

É um dever recordar o sofrimento de quem lutou contra o fascismo, todos temos esse dever, em tempos tão instáveis, de recordar e repetir a voz de quem sofreu nas mãos dos fascistas.
No final do antigo regime, por iniciativa da Amnistia Internacional, Cruz Vermelha e Católicos Progressistas, organizavam-se algumas colónias de férias para crianças cujos pais eram presos políticos, e por antes terem tido de viver na clandestinidade, essas colónias era quase sempre a primeira vez que essas crianças aprendiam a brincar com outras crianças, crianças que tinham crescido no silêncio e na sombra do medo dos pais serem apanhados pela Pide, Marco Martins – A Colónia centra-se numa dessas colónias, realizada em 1972 nas Caldas da Rainha, a partir de uma reportagem da jornalista do Expresso Joana Pereira Bastos.
O texto percorre as suas memórias, recuperando episódios, cartas, desenhos, relatórios oficiais, pedidos censurados, registos públicos e privados daqueles pais presos em Caxias ou no Forte de Peniche, estando a personagem principal, Manuela, sentada em carne e osso de costas para o público, a pedir aos atores que nos iam contar a história para não serem muito dramáticos, era tudo o que lhes pedia, mas como não ser?
E durante a peça, com um pequeno coro de crianças que com o B Fachada vão cantando canções simples e de intervenção, tal como aquelas crianças terão feito em 1972, aos poucos vão-se reunindo em palco algumas dessas então crianças, tal como uma das educadoras, na altura com 21 anos, partilhando connosco tão generosamente as suas histórias, sempre em planos entrecruzados pela sua voz própria e a dos quatro atores profissionais, João Pedro Vaz, Sara Carinhas, Ana Vilaça e Rodrigo Tomás, momentos intimistas porque nunca é fácil recordar a dor de ver os pais presos e torturados, nunca é fácil a dor das privações que sofreram para os pais lutarem pela democracia, sendo que no decurso da peça, a frágil Manuela Canais Rocha, hoje professora de geografia no Barreiro, filha de Francisco Canais Rocha e de Maria Rosalinda Labaredas, do Couço, já se tinha virado para o público e assumido as rédeas da homenagem aos seus pais, quer cantando o Hino de Caxias, quer recreando um teatro de marionetas representado na Colónia.
A comoção que senti não foi comparável ao vendaval de inquietação de Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, encenação de Tiago Rodrigues que acabou de ser considerada pela revista Vulture a melhor peça exibida em Nova Iorque em 2024 – bravo! -, mas acabei a peça a ovacionar de pé com os olhos marejados de lágrimas, acabei a peça a olhar para uma plateia da Culturgest de olhos em água a cantar fascismo nunca mais, foi tudo muito emotivo e sentido, desde logo com a presença cimeira de Conceição Matos e Domingos Abrantes, dois resistentes que nos enternecem só com o ar que respiram, mas também com pessoas desconhecidas ao meu lado que provavelmente estiveram numa dessas colónias, quiçá mesmo presas até, a energia coletiva daquela sala emocionada foi algo de que sempre recordarei, foi muito bonito.
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