Da atualidade política - Montenegro, os bons jornalistas e a democracia

"Óh Burro, não escreves nada sobre o Montenegro e o jornalismo," perguntaram-me, e eu pensei cá com os meus botões, vontade não me falta mas se calhar não, se calhar não porque não gosto de estar sempre a cascar no nosso primeiro-ministro, acho avisado conceder-lhe algum benefício da dúvida e deixá-lo trabalhar, e, sobretudo, porque não gosto que me soprem ao ouvido sobre que temas é que o Burro deve escrever.
Soprar? Óh pá, isto já me soa a qualquer coisa, e na verdade é difícil resistir a comentar alguns (dos muitos) deslizes do nosso Primeiro.
Anunciou o Governo um pacote de 30 medidas para ajudar o setor da comunicação social a enfrentar “desafios significativos” e salvaguardar o “pluralismo, a liberdade de informar e a liberdade de expressão, pilares fundamentais da democracia”, muito bem, é preciso fazer alguma coisa para proteger o jornalismo tão em crise nos dias de hoje, sendo a última dessas medidas a “literacia mediática nas escolas”.
No melhor pano cai a nódoa, ou talvez o pano seja só um terylene, não sei, e na conferência de imprensa para anunciar ao País o dito powerpoint, vem Montenegro acusar os jornalistas que “têm um auricular no qual lhes estão a soprar a pergunta que devem fazer”, apontando-lhes falta de profissionalismo e incapazes de saber fazer as perguntas certas, entenda-se, as perguntas que Montenegro gostava que lhe fossem feitas.
A sério, senhor Primeiro Ministro?
Haverá coisas mais graves com que nos tenhamos de preocupar, à cabeça o Orçamento 2025 nesta altura que tudo se resume ao Orçamento 2025, mas isto é muito mau, não há como relativizar esta afirmação tão infeliz.
Na melhor das hipóteses Montenegro é só ignorante, na melhor das hipóteses não sabe que os jornalistas recebem muitas informações importantes para os diretos via auricular, por exemplo se vão iniciar ou interromper o direto, mas também revela que não acha natural que outros jornalistas na redação lhes “soprem” sugestões de perguntas, até porque o jornalista no local em direto não tem acesso a muita informação relevante, a isto se chama bom jornalismo que se empenha em colocar as melhores perguntas, e não aquelas que o nosso Primeiro entende que deviam ser colocadas.
Mas é difícil acreditar, por muito “Mundo” que lhe reconhecemos faltar, que Montenegro não saiba disto, por isso somos levados a acreditar que Montenegro só quis achincalhar os jornalistas, usando uma linguagem trumpista para se fazer de vítima perante esta classe de malfeitores que só estão interessados em o derrubar, nessa linguagem tão panfletária e tão pouco digna de um estadista.
Para quem queria salvaguardar a importância do jornalismo para a democracia, saiu-se muito bem o primeiro ministro. Cada tiro, cada melro.
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